Conhecimento e sabedoria, de Pope a Roth

O filósofo Mario Sergio Cortella, no livro de conversas dele com Leandro Karnal e Luiz Felipe Pondé, cita uma frase do poeta inglês Alexander Pope de que ele gosta bastante (a tradução é do próprio Cortella):

Algumas pessoas nunca saberão tudo, porque entendem tudo muito depressa.

Não é tão importante aqui o porquê do Cortella gostar desse trecho do Pope (talvez eu volte a ela em outro texto, é uma meditação interessante que ele faz). Estou falando desta frase porque ela me remeteu a outra expressão de que eu também gosto bastante, que apareceu em Complô contra a América, do Philip Roth (a tradução é minha):

Esse desgraçado metido sabe de tudo – pena que ele não sabe nada além disso.

Claro que o Pope e o Roth não estão dizendo a mesma coisa, mas a meu ver, os dois trechos (o primeiro mais do que o segundo) dão a entender a mesma ideia: estudo, livros, aprendizado, diplomas – tudo isso leva à verdadeira sabedoria? Para começo de conversa, o que é mesmo sabedoria? Nem preciso dizer que são perguntas difíceis, e com duas citações não conseguiria começar a responder, se é que existe resposta para elas; mas certamente há piores pontos de partida do que Pope e Roth.

Amarras ao impulso criativo: de onde vêm?

No livro Creative Calling, Chase Jarvis propõe o seguinte experimento: entre numa sala de aula de um jardim de infância, e peça para alguma criança desenhar para você um desenho. Muitas das crianças da sala, se não todas elas, vão se oferecer para fazer o desenho, com altos níveis de entusiasmo. Perfeito, agora repita a experiência com crianças do quinto ano: com sorte, metade da turma vai levantar a mão. E no ensino médio? Será que você conseguiria mais de dois voluntários?

Segundo o Jarvis, isso é culpa do nosso sistema educacional, que nos condiciona desde cedo a trabalhar em fábricas ou em escritórios. Concordo com a explicação, mas me pergunto: será que é só isso? Do mesmo jeito que (como defende o Jarvis, e eu endosso) existe um impulso criativo em cada um de nós, será que, à medida que deixamos de ser crianças, não vão surgindo em nós certos “freios internos” que nos impedem de exercer essas nossas práticas criativas? Freios esses que não são necessariamente frutos da nossa educação?

Vou falar da minha própria vivência, até porque não posso ir muito além dela. Sou professor há mais ou menos oito anos, e antes disso fui aluno de pós-graduação (onde fiz pesquisa) e fiz estágio em uma e outra empresa; minha vida profissional se resume a isso. Ou seja: se até o final da minha graduação eu segui uma trilha profissional relativamente convencional, faz mais de quinze anos já não estou nela (quando decidi fazer mestrado em vez de entrar no mercado de trabalho). Então por que só agora consegui criar este espaço para expressar livremente meus pensamentos? Será que precisei de todos estes anos para me livrar das amarras que a minha formação forçou em mim? Ou será que existia outra força, interna, com a qual eu tive de brigar?

Enfim, não consigo pensar em respostas para estas perguntas. Imagino que gente bem mais preparada do que eu já tenha formulado boas soluções para elas, e essas soluções não tenham cruzado o meu caminho ainda. Mas me parecem boas questões, instigantes, e que valem a pena só pelo fato de serem perguntadas.

Taleb, herdeiro (a contragosto) de Hegel?

Nos livros do Nassim Nicholas Taleb, o filósofo alemão G.W.F. Hegel não é uma presença muito frequente, e quando este dá as caras, nunca é de maneira elogiosa. Em Antifrágil, por exemplo, Taleb fala dos autores que ele foi lendo desde a sua juventude, Hegel sendo apenas mais um entre vários (na verdade, um que ele conheceu de forma indireta, através de Alexandre Kojève). Já em Iludidos pelo Acaso, Hegel é criticado tanto pela forma incompreensível como escrevia quanto pela abordagem científica que ele trouxe para o estudo da história. Para dizer o mínimo, não há registros de que o Taleb reconheça o impacto do autor da Fenomenologia do Espírito nos seus trabalhos – ao contrário, digamos, de Karl Popper, quem ele sempre reconhece como uma influência importante, e quem ele cita para refutar o próprio Hegel.

Nunca dei muita importância para esta aversão do Taleb pelo Hegel até ler o texto introdutório ao pensamento do Karl Marx escrita pelo Isaiah Berlin. Neste livro, Berlin discute brevemente Hegel, uma das principais influências pro autor do Manifesto Comunista. Berlin diz o seguinte sobre o que ele chama de corrente conservadora de seguidores de Hegel (a tradução é minha):

Os conservadores, proclamando que apenas o real era racional, declaravam que a medida da racionalidade era a realidade, ou a capacidade para a sobrevivência – que o estágio atingido por instituições sociais ou pessoais, como elas existiam num dado momento, era uma medida suficiente da sua excelência.

OK, agora vejamos estes trechos de Arriscando a própria pele do Taleb (de novo, a tradução é minha):

A única definição de racionalidade que eu encontrei que é prática, empírica e matematicamente rigorosa é a seguinte: o que é racional é aquilo que permite a sobrevivência. Ao contrário das teorias modernas dos psicologuinhos*, isto vem do modo clássico de pensar. Qualquer coisa que impeça a sobrevivência a nível individual, coletivo, tribal ou geral é, para mim, irracional.

[…]

Nem tudo o que acontece acontece por uma razão, mas tudo o que sobrevive sobrevive por uma razão.

[*-este termo é a tradução para psychosophasters, e peguei emprestado da versão publicada em português, traduzida por Renato Brett]

Não há uma similaridade nas ideias dos dois textos? A relação entre racionalidade e sobrevivência? Ainda que o Taleb dê a entender que a afirmação dele é consistente com o modo de pensar clássico, isso não exclui a possibilidade de que essa conexão já tenha sido apresentada pelo Hegel, ainda que de forma menos explícita. Evidentemente, tenho muito mais familiaridade com a obra do Taleb do que com a do Hegel, e longe de mim negar a originalidade da produção do libanês/americano; só acho fascinante como as influências podem (ênfase no podem) aparecer nos nossos escritos de formas que não somos capazes de estimar, muitas vezes até causadas por aqueles de quem não nos sentimos “herdeiros” intelectuais.

10 melhores jogadores brasileiros pós-2002

No começo da década de 1990, a revista Placar publicou uma lista dos 10 melhores jogadores brasileiros desde a Copa do Mundo de 1970. Para elaborar a lista, a revista entrevistou 35 especialistas, entre jornalistas, ex-jogadores, técnicos etc. Os jogadores que receberam mais votos foram Rivellino, a única unanimidade; Zico, com 34 votos (Luis Fernando Verissimo, sabendo que o Zico seria escolhido de qualquer jeito, preferiu fazer justiça a um jogador do Internacional da década de 1970, Valdomiro); e Tostão, com 33. Os outros jogadores escolhidos foram Ademir da Guia, Carlos Alberto, Falcão, Gérson, Jairzinho, Júnior e Sócrates.

Quando saiu essa edição da Placar, fazia um pouco mais de 20 anos que o Brasil não ganhava uma Copa do Mundo, que é quase a situação em que nos encontramos agora (final de 2020, ou 18 anos sem título). Com base nisso, pensei em como seria uma lista parecida àquela da Placar, com os 10 melhores jogadores brasileiros desde a nossa última conquista no Mundial. Com 34 entrevistados a menos, aqui vai a minha relação dos 10 melhores brasileiros pós-penta, sem qualquer ordem de preferência:

  • Ronaldinho Gaúcho. Alguns anos atrás, o então regente da Orquestra Filarmônica de Berlim, Simon Rattle, anunciou sua demissão do cargo. Logo começaram os boatos sobre possíveis sucessores, e quando a imprensa levou o nome de um deles (Daniel Barenboim) a Rattle, este simplesmente disse: “vou dizer o quê? O homem É música.” Do que o Ronaldinho Gaúcho fez, especialmente entre as Copas de 2002 e 2006, eu penso exatamente nesses termos. O homem FOI futebol.
  • Kaká. O último brasileiro a ser eleito o melhor do mundo, peça fundamental no Milan que venceu a Liga dos Campeões em 2007, e presença importante na Seleção em dois Mundiais (principalmente em 2010, onde merecia melhor sorte).
  • Daniel Alves. O Barcelona do Guardiola que ganhou tudo e encantou meio mundo tinha o Messi, evidentemente, mas o que seria do time sem o Xavi, sem o Iniesta… e sem o Daniel Alves? Pode ser que nós não o vejamos como ele é visto na Europa, mas o valor dele é inegável.
  • Marcelo. O que eu escrevi para o Daniel Alves pode ser facilmente adaptado para o Marcelo, só trocando alguns nomes (Ronaldo no lugar de Messi, Ramos no lugar de Xavi etc.). Ainda que o Real Madrid não tenha sido tão vistoso quanto o Barcelona do Guardiola, a dura verdade é que ganhou mais títulos, e o Marcelo foi muito importante em todos eles.
  • Rogério Ceni. Líder, principal jogador e grande inovador em uma das fases mais vitoriosas do seu clube. Não sei se ele foi o maior jogador da história do São Paulo, ou o mais importante, mas só o fato de ele entrar na discussão já mostra o impacto que ele teve ao longo da sua carreira.
  • Neymar. Embora eu não ache que ele seja tudo aquilo que seus maiores fãs digam que ele é (e tomara que ele me faça queimar a língua em 2022), seu lugar na história já está assegurado: ele é um dos poucos a conquistar tanto a Libertadores da América quanto a Liga dos Campeões, e era o grande craque do time medalhista de ouro nas Olimpíadas do Rio – um título que, só para ficar nos “R”-s, Romário, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos e Rivaldo tentaram ganhar e não conseguiram.
  • Juninho Pernambucano. Talvez o maior jogador da história do Olympique Lyonnais, e um dos melhores cobradores de falta do mundo na sua época. Sem contar sua bela história no Vasco.
  • Lúcio. Bela e longa carreira no futebol alemão, título na Liga dos Campeões pela Inter de Milão, e, assim como Kaká, um papel importante nos Mundiais de 2006 e 2010.
  • Zé Roberto. Um dos poucos brasileiros a ter um bom desempenho no Mundial de 2006, tanto que foi eleito para a Seleção da Copa. Além disso, o que mais impressiona em sua carreira, cheia de feitos tanto no Brasil quanto na Europa, é a longevidade.
  • Thiago Silva. Seu sucesso na Europa é incontestável. Na Seleção, apesar de algumas críticas quanto ao seu papel de líder do time, com a bola nos pés ele tem dado conta do recado. Tanto que foi eleito duas vezes para a Seleção da Copa, e, assim como Neymar, tem a desculpa de não ter jogado no 7 a 1…

Meu lado nas “duas culturas”

Lloyd N. Trefethen é um matemático americano, professor em Oxford, que desde jovem tinha o hábito de registrar em fichas as ideias que lhe ocorriam sobre os mais diversos temas, não necessariamente restritos à sua profissão. Um livro que saiu alguns anos atrás contém algumas destas fichas, que fornecem reflexões curtas e acessíveis a pessoas de qualquer formação.

Acredito que eu vá voltar a outras fichas publicadas nesse livro do Trefethen em outras publicações nesta página, realmente gostei das reflexões contidas lá. Por ora, vou me concentrar no seguinte exercício de imaginação proposto por ele:

Imaginemos um programa de TV desses de perguntas e respostas – o Trefethen sugere o Jeopardy! americano; no Brasil, podemos pensar no Quem quer ser um milionário? do Luciano Huck. Num programa desses, são bem comuns perguntas do tipo Qual foi o filme de maior bilheteria dos anos 1930?, ou Qual é o autor de A Ilha do Tesouro?, ou Qual é o nome do meio do Michael Jordan?. Por outro lado, podemos apostar que os competidores jamais terão de responder coisas assim: Qual é o quinto elemento químico (os outros são hidrogênio, carbono, nitrogênio e oxigênio) presente em dois dos vinte aminoácidos que compõem toda a vida no planeta?

O propósito deste exercício foi ilustrar o que o Trefethen enxerga como o abismo existente entre as “duas culturas” (ciências e humanidades); o que fica claro aqui também, e isto ele não diz, é que uma das culturas é bem mais acessível ao grande público do que a outra.

Já para mim, a mensagem que fica desta brincadeira é outra. Eu fiz graduação, mestrado, doutorado e estágio pós-doutorado no que costumávamos chamar de “ciências exatas”, e dou aulas na área; ou seja, se de fato existem essas “duas culturas”, eu já declarei, de forma implícita, minha lealdade total a uma delas. Mas de que vale essa minha lealdade se eu não faço ideia da resposta para a pergunta do quinto elemento dos aminoácidos (enxofre, segundo o Trefethen), mas consigo responder de cabeça sem pesquisar as outras três perguntas do exercício (… E O Vento Levou, Robert Louis Stevenson, Jeffrey)?

10 solos subestimados do rock

Rick Beato é um produtor e músico americano com um canal bastante popular no YouTube. Um vídeo que apareceu faz pouco lá foi este aqui, no qual ele lista 10 solos de rock que ele julga subestimados – porque a banda não é muito conhecida, ou porque é uma música obscura de um grande grupo, ou por qualquer outro motivo.

Este vídeo me inspirou a fazer a minha própria lista de 10 solos subestimados. Evidentemente, como não sou nem produtor nem músico profissional, nem de longe tenho como abordar aspectos técnicos como o Beato faz. Enfim, aqui vão minhas escolhas, sem ordem de preferência, e com links para o YouTube sempre que possível:

  • Beatles, “Get Back”. Gente bem mais competente do que eu já demonstrou os talentos do John Lennon como guitarrista-base (eu gosto particularmente deste vídeo). Em “Get Back”, ele cria um solo com toques country que se encaixam à perfeição com a temática da letra e com os vocais do Paul McCartney. Isso sem falar no que o Lennon faz durante o refrão (“Get back to where you once belonged…”).
  • Rolling Stones, “Sister Morphine”. O que eu gosto no trabalho do guitarrista Ry Cooder nesta música, e não só no solo, é o contraste: com uma letra destas (que fala de drogas, hospitais, morte etc.), será que uma slide guitar é o melhor acompanhamento? No entanto, a coisa funciona, e muito bem.
  • Television, “Elevation”. O Television surgiu em Nova York nos anos 1970, na mesma cena em que circulavam Ramones, Talking Heads, Blondie, Patti Smith e outros; nunca foi absurdamente popular, mas teve grande influência em grupos que surgiram nas décadas seguintes. Esta banda tem dois guitarristas, Tom Verlaine e Richard Lloyd, que se alternam nos solos; nesta música, é Lloyd quem faz o solo, que para mim é o mais bonito do primeiro disco do grupo, Marquee Moon. Talvez porque o Verlaine seja o vocalista e principal compositor do Television, ele acaba levando toda a fama de músico: só ele aparece na lista dos 100 melhores guitarristas da revista Rolling Stone, por exemplo. “Elevation” mostra que o Lloyd também merece crédito.
  • Velvet Underground, “All Tomorrow’s Parties”. Nesta música, Lou Reed usa o que chamam de ostrich guitar, ou “guitarra avestruz”, que não só não tinha trastes (aquelas separações entre as notas), mas na qual todas as cordas da guitarra estão afinadas na mesma nota – na afinação padrão, as cordas estão afinadas em mi, si, sol, ré, lá e mi, da mais aguda para a mais grave. O efeito desta afinação é, no mínimo, curioso, mas meu motivo para ter este solo entre meus subestimados preferidos tem a ver com a forma como o Reed toca: há momentos durante o solo em que ele parece desistir de tocar qualquer sequência melódica e simplesmente bate em todas as cordas ao mesmo tempo, como uma criança.
  • Oasis, “Columbia”. Uma das minhas músicas preferidas de uma das minhas bandas preferidas, com vários solos tocados por um guitarrista que não tem a fama que merece (como guitarrista, que fique claro). Tecnicamente são solos bem simples, tanto que eu, com meus dons bem rudimentares, consigo reproduzir sem muita dificuldade no violão. Mas o solo que começa quando o Liam Gallagher termina de cantar “This is confusion, we don’t wanna fool you” e se estende até depois de todos gritarem “yeah, yeah, yeah” consegue dar uma dramaticidade e uma agressividade à uma música que, com seus meros três acordes e sua massa de guitarras distorcidas, parecia nem merecer tais características.
  • Deep Purple, “Strange Kind of Woman”. Sim, “Smoke on the Water” é o grande clássico, e “Highway Star” e “Burn” (entre muitas outras) talvez sejam tecnicamente mais sofisticadas. Mas não sei, a forma como o Ritchie Blackmore faz a transição das notas neste solo me soa mais próxima ao estilo dele, tem mais a “cara” dele.
  • Black Sabbath, “Planet Caravan”. O tempero blues e a delicadeza do solo em si já valem a indicação. Que venha do Tony Iommi e do Black Sabbath, um guitarrista e uma banda tipicamente associados ao oposto do que eles mostram nesta música, é ainda mais surpreendente.
  • Stevie Ray Vaughan, “Crossfire”. Um dos meus guitarristas preferidos, não só pela técnica quanto pelo feeling, pela intuição. Em outras músicas (a versão de “Voodoo Child”, por exemplo), fica claro que o Vaughan consegue criar solos rápidos e bem elaborados com um pé atrás – talvez eu devesse dizer com uma mão atrás, literalmente, é só conferir o que ele faz ao vivo… Já nesta música, o que marca para mim é a simplicidade, principalmente no segundo solo: se ele toca cinco notas é muito. Mas toca com pegada, um senso de diversão tremendo, e é típico Vaughan.
  • Police, “Bring on the Night”. O guitarrista (Andy Summers) só não é o principal destaque nesta banda porque ele tem como companheiros um gênio das baquetas e um vocalista/baixista/compositor talentoso nos três domínios, além de um poço de carisma. O motivo de eu escolher este solo tem a ver com contrastes, como na minha discussão de “Sister Morphine”: uma música com uma levada reggae, bem animada, não mereceria as punhaladas de barulho punk que o Summers dá neste solo. Mas, de novo, a coisa acaba funcionando. E para encerrar: o que o Summers faz no restante da música é ainda melhor do que o trabalho dele no solo.
  • AC/DC, “Night Prowler”. Esta música, a última do último disco com o vocalista Bon Scott (ele morreu alguns meses após o lançamento do álbum), tem uma dramaticidade rara no catálogo da banda; coincidência ou não, outra música que, a meu ver, também tem esta característica é “Hells Bells”, que abre o primeiro disco com o vocalista que substituiu Scott. Em “Night Prowler”, o solo é componente essencial para esta tensão que só aumenta.

Messi vs. Ronaldo: uma explicação “científica”

Mark Kac, um matemático americano de origem polonesa, classificava as pessoas geniais em duas categorias. Segundo Kac, uma categoria é a dos ‘gênios ordinários’, que são pessoas como qualquer outra, só que muito mais competentes. Ao ver as obras dos gênios ordinários, temos a impressão de que, com bastante esforço e nada mais, conseguiríamos fazer o mesmo que eles. E a outra categoria é a dos ‘mágicos’, aqueles cuja mente é um completo mistério para o resto da humanidade. Por mais que olhemos e estudemos as coisas que os mágicos produzem, o caminho que eles tomam para chegar até lá não faz o menor sentido para nós.

Essa distinção entre gênios ordinários e mágicos é como eu vejo as diferenças de talento entre Cristiano Ronaldo e Lionel Messi, o português pertencendo à primeira categoria, e o argentino, à segunda. Ao verem Ronaldo jogar, muitos podem achar que qualquer outro jogador faria o que ele faz em campo, bastando ter a mesma velocidade, e o mesmo preparo físico, a mesma impulsão nos saltos… Os gols que ele fez neste jogo dão uma boa noção da aparente facilidade com que ele executa as suas jogadas. Já Messi, em seus melhores momentos, parece ser de outro planeta. Este gol, que ele fez com apenas 19 anos, é um excelente exemplo: mais de um espectador se sentiu como o narrador do vídeo e pensou no Maradona ao ver o lance.

Não sei se o Kac achava os mágicos superiores aos gênios ordinários. Do mesmo modo, não é por causa da analogia que eu fiz que acho o Messi melhor do que o Ronaldo, como quer que se defina o que é um jogador ser “melhor” do que outro. Certamente é bem mais gostoso ver o argentino jogar, mas o português ganhou mais títulos, por mais equipes e até por sua seleção. Principalmente por este critério (número de títulos), se eu tivesse de escolher o melhor entre Messi e Ronaldo, eu ficaria com o último. Mas, esta sim, seria uma escolha muito difícil.