Dois tipos de silêncio

Nesta entrevista para o radialista Howard Stern, o comediante sul-africano Trevor Noah explicou como ele aprendeu a lidar com momentos de silêncio da plateia com os quais ele eventualmente ele tem de lidar. Nisso, ele recebeu uma grande ajuda de outro comediante, Dave Chappelle, que lhe disse: Trevor, as pessoas querem te ver não porque você é engraçado, gente engraçada você acha aos montes por aí. Não, as pessoas querem te ver porque você é interessante. Não é todo mundo que é interessante, não é todo mundo que consegue fazer uma plateia ouvir, não é todo mundo que tem experiências de vida que fazem com que as pessoas queiram saber o que há na sua cabeça.

O Stern logo percebeu que o conselho do Chappelle ao Noah se aplicava não só a comediantes, mas a qualquer pessoa. Se ele se aplica a mim, não sei, porque ainda não tive a oportunidade de testá-lo; mas posso dizer que ele me ajudou a observar de forma diferente momentos de silêncio que percebo na minha vida profissional. Eu dou aulas no ensino superior, ou seja, para alunos em tese mais maduros e mais interessados nas aulas a que assistem do que, digamos, alunos do ensino médio. E eu me deparo com frequentes momentos de silêncio, geralmente causados por tédio, desinteresse, ou puro sono. Mas às vezes, muito às vezes, acontece outro tipo de silêncio, e esse é do tipo descrito pelo Noah na entrevista que eu citei. Não vou dizer que é por meus dons de oratória, e eventualmente a motivação é simplesmente a proximidade de uma prova, mas há momentos em que consigo perceber a “plateia” quieta porque ela está de fato prestando atenção nas minhas palavras, porque ela está conectada ao assunto. É difícil explicar o que faz dele uma outra forma de silêncio, mas dá para perceber que ele é diferente.

Como eu disse, essas ocasiões são raríssimas, e costumam durar um período de tempo muito curto. Mas são bastante recompensadoras para um professor.

Sobre o esquecimento em Israel

Eu não sou judeu, mas tenho interesse em diversos aspectos da cultura e da tradição judaicas. Eu percebi que, dos 15 textos publicados nesta página, 6 mencionam autores judeus ou temas ligados à história judia. Nisso, eu sei que estou em boa companhia: Borges teve grandes amigos judeus durante sua adolescência na Suíça, e pelo menos um biógrafo suspeita que essa convivência é a responsável pela constante presença de temas judeus na obra posterior do argentino – não é à toa que um dos contos mais famosos dele se chama justamente O Aleph.

Eu digo tudo isso para explicar que sempre sou atraído por histórias como as que envolvem o regente e pianista Daniel Barenboim. Sobre suas habilidades musicais não tenho muito o que dizer, já que sou praticamente leigo em música erudita; falei dele nesta página, mas só para fazer uma analogia com os talentos do Ronaldinho Gaúcho como jogador de futebol. Mas há aspectos da biografia dele que vão além dos seus talentos: suas múltiplas cidadanias (argentina, israelense, palestina e espanhola); seu casamento com a Jacqueline du Pré; sua decisão de tocar Wagner em Israel, informalmente banido no país por ter sido o compositor favorito dos nazistas. Ao falar sobre esta decisão, o músico se lembrou de uma entrevista coletiva que foi interrompida pela chamada de um celular que tocava justamente ao som das Valkírias; se um celular pode tocar Wagner em Israel, pensou o Barenboim, por que não uma orquestra?

Esta anedota me trouxe à memória outras evidências de que alguns dos capítulos mais trágicos da história recente do povo judeu vêm sendo vividos exatamente dessa forma, como história – pelo menos em Israel. No romance Operação Shylock: uma Confissão do americano Philip Roth, por exemplo, há uma cena em que adolescentes de uma escola de Jerusalém vão assistir ao julgamento do guarda de um campo de concentração:

[os estudantes] estavam passando recados entre si, como meninos de qualquer lugar do mundo quando são levados a excursões por seus professores e ficam para lá de entediados. Eu vi duas meninas por volta de catorze anos dando risadinhas por causa de um recado que elas tinham recebido de um menino numa fila atrás delas. A professora, uma moça magra e intensa que usava óculos, mandou elas pararem com isso, mas eu olhava para as duas e pensava, “não, não, está certo” – para elas Treblinka deveria ser um lugar nenhum lá na Via Láctea; neste país, tão fortemente povoado nos seus primeiros anos por sobreviventes e suas famílias, é na verdade motivo de alegria, pensei eu, que até o final da tarde essas adolescentes não vão nem se lembrar o nome do acusado.

Outro caso foi não a notícia em si, mas como ela foi relatada pelo jornalista. Em 2018, a Seleção Israelense de Futebol contratou o austríaco Andreas “Andi” Herzog para ser seu técnico. Um site esportivo alemão contou como foi a entrevista coletiva de apresentação do novo técnico:

Do seu amigo e mentor Jürgen Klinsmann, com quem “Herzerl” [Herzog] foi co-treinador da Seleção dos EUA entre 2011 e 2016, ele aprendeu: para ser bem-sucedido, ou você se chama Franz Beckenbauer – ou você trabalha duro, de preferência 24 horas por dia. “Eu joguei por 10 anos na Alemanha, e há um motivo pelo qual os alemães têm tanto sucesso.” Um exemplo ousado, sobretudo em Israel. Mas a maioria dos jornalistas presentes concordou com a cabeça. [Os negritos são meus.]

De novo: não sou judeu. Também não sou israelense. Não faço ideia de como se dão esses processos de memória e esquecimento em Israel ou em qualquer outro país, além destes escassos exemplos que eu citei – um deles, inclusive, fictício, ainda que seu autor seja evasivo a respeito. Mas enfim, é um tema que me atrai, e se me dá a chance de falar de música, futebol e Philip Roth, melhor ainda.

(Todas as traduções são minhas.)

Sherlock Holmes e os terraplanistas

Neste texto, eu falo do terraplanismo simplesmente porque é uma teoria bastante comentada nos últimos tempos, tanto no Brasil quanto internacionalmente; o que eu vou discutir aqui vale para qualquer outra teoria pseudocientífica, como alquimia, criacionismo ou astrologia. Antes de prosseguir, eu gostaria de ressaltar que não faço qualquer juízo de valor sobre qualquer uma destas teorias. Existem certos critérios adotados por cientistas e filósofos para decidir o que é ciência e o que não é; um deles é o da falseabilidade, segundo o qual, em linhas bem gerais, uma teoria científica é válida se a sua validade pode ser refutada por novas evidências. Pensando, por exemplo, na astrologia: que fatos poderíamos fornecer para refutar as suas declarações?

Voltando ao tema do meu texto. Muitos de nós temos a tendência de olhar com menosprezo para aqueles que defendem teorias como o terraplanismo, talvez até com raiva – ainda mais porque esses defensores costumam se alinhar a certas correntes políticas… Mas não é esse o ponto. Crenças sem fundamento todos nós podemos ter, e quem disse que as nossas próprias afinidades políticas não se encaixam nessa categoria? Para mim, o aspecto mais interessante no que se refere a essas crenças em teorias pseudocientíficas é: quão nocivas elas são para seus crentes?

Curiosamente, descobri que o Sherlock Holmes nos dá uma dica para responder esta pergunta. Em Um Estudo em Vermelho, a primeira aparição do detetive no papel, o dr. Watson se surpreende que o Sherlock nunca ouviu falar das teorias do Copérnico sobre o Sistema Solar:

– Você parece surpreso – ele [Holmes] disse, rindo da minha expressão de surpresa. – Agora que eu conheço a teoria vou fazer o possível para esquecê-la.

– Esquecê-la!

– Veja – ele explicou – eu entendo que o cérebro de um homem originalmente é como um sótão vazio, que você tem que encher com a mobília que você escolher. Um tonto coloca lá dentro todo tipo de tralha que ele encontra pelo caminho, e aí o conhecimento que poderia ser útil para ele acaba ficando de fora, ou no melhor dos casos, fica misturado com tantas outras coisas que ele tem dificuldade de encontrá-lo. Agora, o trabalhador hábil é muito cuidadoso quanto ao que ele traz para dentro do seu cérebro/sótão. Ele só leva as ferramentas que o ajudam a fazer o seu trabalho, mas destas ele tem uma grande variedade, e todas na mais perfeita ordem. É um erro achar que esse quartinho tem paredes elásticas e pode se estender em qualquer direção. Pode ter certeza de que vai chegar o momento em que para cada acréscimo de conhecimento, você vai esquecer algo que você sabia antes. Portanto, é da maior importância não ter fatos inúteis empurrando os fatos úteis para fora.

– Mas o Sistema Solar! – eu protestei.

– Que me importa o Sistema Solar? – ele interrompeu sem paciência. – Você diz que nós rodamos em volta do Sol. Se nós rodássemos em volta da Lua não faria um mínimo de diferença para mim ou para o meu trabalho.

De fato, somos forçados a concordar que as atividades de um detetive na Londres do século XIX são muito pouco afetadas pela dinâmica conjunta dos planetas (e seus satélites, e asteroides etc.) que giram em torno do Sol. Do mesmo modo, o que muda na vida de, digamos, um/a morador/a de uma grande cidade brasileira no começo do século XXI se ele/a acredita que a terra é plana? E a verdade é: muito pouco, se não nada. A pessoa talvez seja ridicularizada pelas suas crenças (mas liberdade de expressão é isso mesmo), e se veja impedida de trabalhar em indústrias onde todos abraçam a noção de um planeta esférico (telecomunicações, aviação, comércio exterior etc.), mas é só.

E, com base no que eu disse lá em cima: se as crenças pseudocientíficas dos outros são, em geral, inofensivas… Bom, não temos o que temer das crenças absurdas que nem sabíamos que tínhamos, certo?

(A tradução é minha.)

Tolentino provoca, Larkin soluciona (25 anos depois)

Em 1996, o poeta Bruno Tolentino deu uma entrevista à revista Veja que, quase um quarto de século depois, ainda me deixa intrigado. Por uma série de declarações dele, mas principalmente por esta aqui:

Não posso educar filho em escola daqui. […] Foi minha mulher* quem disse não. Educar um filho ao lado de Olavo Bilac, última flor do Lácio inculta e bela, que aconteceu e sobreviveu, ao lado de um violeiro qualquer que ela nem sabe quem é, este Velosô, causou-lhe espanto. A escola que ela procurou para fazer a matrícula tem uma Cartilha Comentada com nomes como Camões, Fernando Pessoa, Drummond, Manuel Bandeira e Caetano. O menino seria levado a acreditar que é tudo a mesma coisa. […] Minha mulher já havia se conformado com os seqüestros e balas perdidas do Rio, mas ficou indignada e espantada pelo fato de se seqüestrar o miolo de uma criança na sala de aula. Se fosse estudar no Liceu Condorcet, em Paris, jamais seria confundido sobre os valores do poeta Paul Valéry e do roqueiro Johnny Hallyday, por exemplo. […] É preciso botar os pingos nos is. Cada macaco no seu galho, e o galho de Caetano é o show biz. Por mais poético que seja, é entretenimento. E entretenimento não é cultura. […] Se fizerem um show com todas as músicas de Noel Rosa, Tom Jobim ou Ary Barroso, eu vou e assisto dez vezes. Mas saio de lá sem achar que passei a tarde numa biblioteca. Não se trata de cultura e muito menos de alta cultura. Gosto da música popular brasileira e também da de outros países, mas a música popular não se confunde com a erudita. Então, como é que letra de música vai se confundir com poesia?

O que incomodava o Tolentino era que, na sua visão, as escolas e as universidades brasileiras não viam distinção de valor entre a obra do Caetano Veloso e a de poetas como Drummond, Bilac e Bandeira. O que inaceitável para o poeta, já que o que o Caetano faz (música popular) estaria num nível abaixo do que os poetas fazem (alta cultura).

Imagino que eu não seja o único a perceber uma certa agressividade do Tolentino (falecido em 2007) direcionada ao Caetano e a esse endeusamento dos seus talentos como poeta e homem de letras, mas não é por isso que as declarações dele me intrigam – se ele gostava ou não de determinada obra literária, como quer que seja definida literatura, obviamente era direito dele. A pergunta mais interessante para mim era outra: o que numa letra do Caetano faz dela inferior a um poema do Drummond? Em outras palavras: por que o texto poético tem um valor intrinsicamente superior ao texto de uma letra de música?

Eu me lembro de ter levado minhas inquietações ao meu professor de Português do então 2o. ano do Ensino Médio, logo depois de ter lido essa entrevista; o fato de eu não lembrar do que o professor me disse me faz acreditar que a resposta não foi muito esclarecedora. Não voltei a pensar no assunto nem mesmo em 2016, quando o Bob Dylan ganhou o prêmio Nobel de Literatura – ou, como o Tolentino poderia ter colocado, quando a Academia Sueca fez o papel das escolas brasileiras e colocou o Dylan no mesmo nível de poetas como W.B. Yeats, T.S. Eliot e Pablo Neruda. Até que, recentemente, ao reler a entrevista que o poeta inglês Philip Larkin deu à revista Paris Review (e publicada em uma coletânea), eu encontrei, se não uma resposta completa ao enigma proposto pelo Tolentino, pelo menos um primeiro passo. O Larkin está falando de leituras públicas de poemas (a tradução é minha):

Ouvir um poema, em vez de lê-lo no papel, quer dizer que você perde tanta coisa – a forma, a pontuação, os itálicos, mesmo saber quanto falta para acabar. Ler no papel significa que você pode ir no seu próprio ritmo, absorvendo tudo do jeito certo; ouvir significa que você é arrastado ao ritmo do locutor, perdendo coisas, sem absorver tudo, confundindo palavras, e coisas assim. E o locutor pode interpor a personalidade dele entre você e o poema, para o bem e para o mal. Assim como a plateia também pode se interpor. Eu não gosto de ouvir coisas em público, nem mesmo música. Na verdade, eu acho que leituras de poemas surgiram a partir de uma falsa analogia com a música: o texto é a “partitura” que não “vem à luz” até que é “interpretada.” É falsa porque as pessoas podem ler as palavras, mas não podem ler as partituras. Quando você escreve um poema, você põe nele tudo o que é necessário: o leitor deveria ser capaz de “ouvi-lo” como se você estivesse na sala recitando-o para ele. E é claro, essa moda de leituras de poemas levou a um tipo de poesia que você consegue entender de primeira: ritmos fáceis, emoções fáceis, sintaxe fácil. Eu não acho que se sustenta no papel. [Os negritos são meus.]

Ou seja: segundo o Larkin, um poema composto para ser ouvido tende a ser mais simples no que se refere a “ritmos, emoções, sintaxe” etc., o que faz sentido, já que a sua compreensão pela plateia deve ser imediata – ao contrário do poema composto para ser lido, no qual “você pode ir no seu próprio ritmo, absorvendo tudo no jeito certo”. Como uma letra de música pode ser vista como um poema a ser ouvido em público, aqui temos uma possível explicação da diferença de valor entre as duas formas textuais. Claro, resta verificar se essa diferença existe de fato, o que seria uma tarefa monumental; mas, como eu disse lá em cima, pelo menos temos um primeiro passo.

*-Tolentino era casado com Martine, uma francesa.

10 viradas subestimadas do rock

Viradas são aquelas coisas que os bateristas fazem numa música que são diferentes da batida convencional da própria música – digamos, um “tum-tá, tum-tum-tá…” – para indicar uma transição. Algumas viradas são bastante conhecidas até de quem não ouve rock: a de “In the Air Tonight”, do Phil Collins, é conhecida de fãs do basquete americano, e virou objeto de diversos memes; ou quando a comédia Eu te Amo, Cara, de 2009, aborda o gosto de dois amigos pela banda Rush, a virada de “Tom Sawyer” tem de ser mencionada.

Assim como aquele meu texto poderia ter como título 10 solos de guitarra que não estão em “Stairway to Heaven”, este texto aqui bem que poderia se chamar 10 viradas de bateria que não são aquela de “In the Air Tonight” ou aquela de “Tom Sawyer”. Eu escolhi 10 viradas de bateristas ou grupos não tão conhecidos, ou músicas mais obscuras de grandes nomes – de cara, decidi não pegar, por exemplo, “Won’t Get Fooled Again”, do Who, que não só é um ícone entre bateristas como também ganhou certa fama fora dos círculos musicais, por causa da série CSI: Miami. Enfim, aqui vão minhas escolhas, sem qualquer ordem de preferência:

  • Clash, “Complete Control”. Esta é a versão ao vivo da música, que aparece na coletânea From Here to Eternity. A minha opinião é que este baterista, Topper Headon, não tem a reputação que merece, pelo menos em parte, porque o som da bateria não costuma ser muito destacado nos discos de estúdio do Clash (atitude sensata em se tratando de uma banda originalmente de punk rock). Em From Here to Eternity a bateria soa grandiosa, e aí o Headon brilha. “Complete Control” tem várias viradas, uma melhor do que a outra, mas a minha preferida está quase no final da música, logo antes do Joe Strummer cantar “This is Joe Public speaking…” Em todas as viradas nesta música o Headon escolhe batidas bem rápidas, mas nesta em particular, ele parece puxar o freio de mão da bateria, e com isso fazer a música e a banda implodirem com ele. O efeito é quase apocalíptico, e absolutamente genial.
  • Smashing Pumpkins, “Bury Me”. Esta também é uma música cheia de viradas, com diferentes graus de complexidade. A minha preferida aparece ao final do solo de guitarra, e conceitualmente é bastante simples (uma sequência bem rápida de batidas na caixa, e depois uma batida no prato), mas é de execução precisa e se encaixa perfeitamente à estética da música: pesada, rápida, um tanto quanto fria. O trabalho do baterista Jimmy Chamberlin é brilhante no restante da música, e não só nas viradas.
  • Rush, “Tom Sawyer”. Logo depois d’aquela, o Geddy Lee canta uma estrofe, e aí vem mais uma virada – é dessa que eu estou falando. É bem mais curta e usa bem menos peças que a virada mais famosa, mas tem uma variação de velocidades e uma repetição de trechos que eu acho sensacional. Sem contar que, para o talento do Neil Peart, é até relativamente simples.
  • Led Zeppelin, “Fool in the Rain”. É a primeira virada depois que a música deixa de ser um, digamos, samba (pode ser algum outro ritmo latino, difícil saber), e volta ao ritmo original. A virada é curta, simples, com mudanças de velocidades nas batidas na caixa seguidas de batidas no tom-tom e no prato. Típico John Bonham: precisão, força, técnica. A música vale também pela batida que o Bonham cria, que pode ser ouvida de forma isolada aqui.
  • Oasis, “Hello”. As viradas nesta música são todas muito parecidas umas com as outras, e todas muito boas. O Oasis não é uma banda geralmente reconhecida pela proeza técnica dos seus instrumentistas, algo que talvez devesse ser revisto em alguns casos. No meu texto sobre os 10 solos subestimados eu já tinha feito uma defesa do Noel Gallagher, e aqui eu aproveito para elogiar o Alan White, o baterista do grupo a partir do segundo disco.
  • Beatles, “Hey Jude”. É difícil dizer que qualquer coisa relacionada aos Beatles é subestimada, já que tudo que eles fizeram vem sendo tão minuciosamente analisado e estudado por tanta gente há décadas. Ainda assim, me parece que um aspecto de “Hey Jude” não muito levado em conta é a entrada da bateria: direta, nada espalhafatosa, ela ajuda a dar mais dramaticidade à música – por sinal, típico Ringo, sempre com atenção total às necessidades da música.
  • Steve Miller Band, “Fly Like an Eagle”. A virada aparece na última repetição do refrão, logo depois de Steve Miller cantar “I wanna fly till I’m free”. Curta, com batidas rápidas na caixa e no tom-tom, e muito bem-executada, ela quase passa despercebida, de tão bem-integrada que está à música.
  • Blondie, “Call Me”. Banal em comparação com outras músicas desta lista, sofisticada para uma banda de estilo mais punk rock/new wave, a virada que abre os trabalhos cai como uma luva com o restante da música.
  • Van Halen, “I’ll Wait”. As viradas nesta música são todas muito parecidas, e podemos pegar como um exemplo típico a que aparece logo antes do David Lee Roth começar a cantar. Eu escolhi esta música não por causa da complexidade das viradas – se fosse por isso, eu poderia ter ficado com, digamos, “Hot for Teacher”. Quando começa a tocar uma música do Van Halen em algum lugar, eu consigo identificar a banda quase imediatamente mesmo sem conhecer a música (certamente não sou o único), por causa do som da bateria do Alex Van Halen; e “I’ll Wait” é, a meu ver, a música da banda que mais deixa em evidência essa característica, e não só nas viradas.
  • Blue Cheer, “Rock me Baby”. Esta é uma banda relativamente obscura, que aqui faz uma versão de um blues do B.B. King. Há várias viradas nesta música, todas muito boas – ela meio que termina em uma virada enorme de meio minuto! Eu fico com a primeira, que marca a entrada da bateria, porque ela dá o tom sujo, pesado, caótico, de toda a música.

Sobre Renata Adler

Adoro este trechinho de Speedboat, romance de estreia da escritora, jornalista e crítica literária Renata Adler, publicado em 1976 (a tradução é minha):

Há uma passagem em Dante na qual ele e Virgílio, viajando através do Inferno, param do lado de um homem enterrado até o pescoço em lama fervente. Ele nem se dá ao trabalho de falar com eles. Ele tem seus próprios problemas. Ele não quer uma entrevista. Dante o segura pelos cabelos e arranca dele a história. Algum tipo de parábola sobre reportagem aí, eu acho. Na verdade, eu sei.

Speedboat é inteira escrita em vinhetas como a que eu citei, que vão formando, de forma indireta e não-linear, uma história mais ou menos coerente. É por causa deste formato de vinhetas que eu digo, na resenha que eu incluí na página do livro no Goodreads, que Speedboat me lembra bastante o disco Low, do David Bowie: as músicas naquele álbum (para ser bem honesto, estou falando só do lado A) têm um aspecto fugaz, quase inacabado, mas que formam um todo bastante coeso. (Sem ir muito longe, já no disco seguinte, “Heroes”, também gravado em Berlim, o Bowie criou canções mais convencionais, como a clássica faixa-título.)

Mas voltando ao trecho que eu escolhi. Não é espetacular a conexão que a Adler faz da Divina Comédia com a profissão de jornalista? E bastaram duas frases para ela fazer essa conexão, uma delas com só quatro palavras! (Em inglês são quatro palavras também.) Eu até pensei em discorrer sobre como a concisão é a chave da boa comunicação, usando Speedboat como exemplo, ou analisar alguma outra característica da prosa da Adler, mas… Há momentos em que, como escreveu em outro contexto a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, “eu não quero explicar. Eu quero observar.”

Vou ficar aqui admirando esta e outras passagens de Speedboat, e quem quiser se juntar a mim, é mais do que bem-vindo.

William Styron e uma lição de solidariedade

Não era a minha intenção, nesta página, ser efêmero – dentro do possível, minha ideia era que meus textos não tivessem um prazo de validade muito curto. Mas acho que o trecho abaixo vale como advertência tanto para a época atual quanto para vários outros momentos de crise, passados e futuros, em que grupos de pessoas com histórias e visões distintas (quando não conflitantes) se veem diante de um gigantesco desafio comum, do qual têm maior chance de sair vitoriosos se unindo do que separados.

Eu extraí esta passagem do romance A Escolha de Sofia, do William Styron. É uma conversa entre dois membros da Resistência na Polônia ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, Feldshon e Wanda (ele judeu, ela não). A Wanda diz ao Feldshon:

Eu sei o que é o sofrimento de vocês. Eu sei o que é isso desde o verão passado, quando eu vi as primeiras fotografias contrabandeadas de Treblinka. Eu fui uma das primeiras a vê-las, e como qualquer um, eu também não acreditei nelas no começo. Hoje eu acredito. É horrível o sofrimento de vocês, nisso ele é insuperável. Sempre que eu passo perto do gueto, eu penso em um maluco com uma metralhadora dando tiros num barril com ratos dentro. É como eu vejo o desamparo de vocês. Mas os poloneses, nós também estamos desamparados, do nosso próprio jeito. Nós temos mais liberdade do que vocês judeus – muito, muito mais liberdade de movimento, mais liberdade do perigo imediato – mas nós ainda estamos num cerco diário. Em vez de dentro de um barril, somos ratos num prédio em chamas. Nós podemos nos afastar do fogo, achar lugares menos quentes, descer ao porão onde é seguro. Alguns poucos entre nós talvez até possam escapar do prédio. Todo dia muitos de nós são queimados vivos, mas o prédio é grande e somos salvos simplesmente por sermos tão numerosos. O fogo não vai chegar a todos nós, e daí um dia – talvez – o fogo vai se apagar sozinho. Se isso acontecer, vai haver muitos sobreviventes. Mas o barril – praticamente nenhum dos ratos lá dentro vai estar vivo… Mas me deixa te perguntar uma coisa, Feldshon. Você espera que os ratos no prédio, morrendo de medo, estejam lá muito preocupados com os ratos que ficaram dentro do barril – os ratos por quem eles já nem sentiam muita afinidade mesmo?

(A tradução é minha. Há uma edição brasileira traduzida por Vera Neves Pedroso.)

Naomi Wolf vs. Camille Paglia

Comecei a ler O Mito da Beleza, da Naomi Wolf. Como mal passei da introdução, vou precisar de tempo para falar do livro como um todo; por ora, já posso afirmar que me impressionou bastante a tese central do livro: no momento em que mulheres cada vez mais ocupam espaços que antes eram exclusivamente masculinos (no mercado de trabalho, na política, no controle das finanças domésticas etc.), eis que as forças reacionárias do status quo formulam uma certa noção universal, ou “mito”, de “beleza” feminina que todas as mulheres devem atingir, e que acaba servindo como a mais nova forma de opressão da atual estrutura patriarcal da nossa sociedade. “Mito” este, por sinal, elaborado muito mais de acordo com conveniências políticas e/ou econômicas do que qualquer outra consideração (digamos, biológica ou histórica), ao contrário do que pode parecer.

Sobre a validade da tese da Wolf* eu não me sinto muito confortável para falar. Primeiro porque eu nem acabei de ler o livro! Segundo porque, como eu já comentei brevemente aqui, essa nem é minha formação. Além do mais, críticas à obra da autora como um todo, e a O Mito da Beleza em particular, são fartas e fáceis de encontrar, as páginas da Wikipédia daquela e deste sendo bons pontos de partida. Feitas todas estas ressalvas, eu diria duas coisas: a primeira é que, só de prestar atenção no mundo e na sociedade à nossa volta, dá para ver que a Wolf tem um ponto central válido, plausível e bem-intencionado, e se houver falhas na exposição dela (como o uso de estatísticas incorretas no texto), talvez não seja nada que derrube o seu ponto principal. A segunda coisa eu deixo em forma de pergunta: OK, pode haver críticas bem-intencionadas à Wolf, e elas são bem-vindas; as demais, a que interesses elas servem?

Mas o que eu queria escrever sobre O Mito da Beleza, e sobre a Naomi Wolf, era outra coisa, que foi a verdadeira pulga que se alojou atrás da minha orelha logo nas primeiras páginas. Pelo tom do livro, e pela tese que a Wolf defende, a imagem que foi se formando na minha cabeça foi: “este não é o tipo de texto que a Camille Paglia detestaria?” E por trás desta imagem, veio a pergunta desafiadora: “por que esta impressão?

Da Camille Paglia eu sei um pouco mais do que da Naomi Wolf, não que eu seja um grande estudioso daquela, ou mesmo um estudioso medíocre. Eu me lembro de ter lido, na adolescência, uma entrevista dela na Veja, em que ela falava de Personas Sexuais, um livro que ela tinha acabado de publicar, e que estava fazendo um belo estardalhaço nos EUA; confesso que não entendi muito do que ela disse. Às vezes me deparo com uma entrevista dela a um site qualquer (não gostei que ela criticou o Jon Stewart, pura birra minha), e cheguei a tentar ler Personas Sexuais (recomendado por ninguém menos que David Bowie), mas era uma leitura que exigia uma atenção da qual eu não dispunha naquele momento, e desisti. Tem um texto dela do qual eu sou muito fã, e que inspirou muito do que eu escrevo nestas páginas, que é o prefácio original de Personas Sexuais, descartado por ser muito longo. Nesse prefácio ela faz uma exaltação e uma defesa apaixonada (e apaixonante, pelo menos para o meu gosto) da crítica literária feita fora dos rígidos padrões acadêmicos atuais:

Ser um estudioso é a maior das vocações: compor um comentário devoto, um Talmud, do mundo criado… Eu me sinto numa ligação direta com os eclesiásticos…

Os professores a quem eu mais devo, Harold Bloom e Milton Kessler, são menos professores do que rabinos visionários. O paradigma rabínico se aplica também a outras mentes que eu admiro: Geoffrey Hartman, Alvin Feinman, Richard Tristman. Na Inglaterra, as origens de Oxford e Cambridge no monaquismo medieval produziu, nos seus professores, a tendência ao celibato ou ao homossexualismo. O estilo professoral inglês urbano, espirituoso, verbalmente agressivo contrasta fortemente com o padrão exigido nos EUA, onde, até recentemente, o homem de família moderado e certinho era o mais apreciado. Colin Still nota, “o crítico de arte é essencialmente um intérprete de sonhos.” Eu reivindico descendência de mânticos, áugures, escribas, alquimistas e hereges. A autoridade espiritual das universidades americanas é comprometida pela mecânica interna do carreirismo e da hipocrisia. Do estudioso eu digo: o esteta, o rabino, o monge, mas nunca o burguês.

Bom, agora falando da Wolf e da Paglia. Esta fez uma palestra no M.I.T. em 1991, publicada depois nesta coleção de ensaios (que inclui também o prefácio original de Personas Sexuais). A palestra por si só é deliciosa, pelo esboço autobiográfico que ela apresenta, pelas críticas afiadas e precisas a autores como a própria Wolf (a quem ela chama de “Pequena Miss Pravda”), e por muitos outros motivos. Meu interesse aqui são os elementos da palestra que, para mim, sintetizam o tipo de pensadora que é a Paglia, principalmente em contraste com a Wolf, e que fizeram da minha orelha um lugar tão convidativo para a pulga que eu mencionei mais cedo. Deixo só alguns exemplos: Paglia se declara inteiramente pró-pornografia (Wolf vê o aumento do consumo da pornografia como validação da tese de O Mito da Beleza); Paglia incentiva a busca constante pela beleza, mesmo em campanhas publicitárias (para Wolf, a publicidade é justamente um dos lugares onde as forças reacionárias estão mais presentes); Paglia não ignora efeitos da natureza, tanto da biologia humana quanto do meio ambiente, e enfatiza a responsabilidade pessoal (Wolf parece enfatizar bastante o que Paglia chama, talvez com certo desprezo, de “o sistema”).

Que há entre as autoras uma certa desavença intelectual, colocando em termos bem amenos, acredito ter ficado claro. Uma pergunta que surge é: quem está certa? E eu respondo já, com outra pergunta: não podem estar as duas certas, cada qual à sua maneira? Eu tenho mais afinidade com a Paglia por conhecer melhor o trabalho dela, pela qualidade da sua prosa, e pela sua erudição, o que compensa o seu estilo um pouco raivoso (e ter falado mal do Jon Stewart). E registre-se que, apesar de todas as críticas que ela fez à Wolf e a O Mito da Beleza na palestra no M.I.T., ela demonstrou certa delicadeza – “Naomi Wolf é uma mulher inteligente… Ela tem um ponto a mostrar. Ela só não consegue mostrar bem esse ponto.”

O que me leva de volta aos primeiros parágrafos deste texto: O Mito da Beleza se justifica pela sua tese central, que permite ver fenômenos da nossa sociedade de uma outra forma; do mesmo jeito que o livro fez isso comigo, fez com muitos outros, e mais importante, muitas outras. Se seus métodos são falhos, se sua prosa é deficiente… bom, ainda bem que temos as Camilles Paglias da vida para corrigir seu rumo, ainda mais que elas não perdem de vista que as Naomis Wolfs são suas companheiras de batalhas.

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*-Meu primeiro impulso foi começar esse parágrafo escrevendo “Sobre a validade da tese da Naomi…”, usando o nome próprio da autora em vez do sobrenome. Ainda gosto mais da forma que eu descartei, por razões puramente estéticas, mas deixei o sobrenome por consistência: se o autor fosse, digamos, o Noam Chomsky, eu teria escrito o parágrafo “Sobre a validade da tese do Chomsky…” sem pensar muito. Só coloco este aparte para registrar como os nossos preconceitos às vezes se manifestam de formas bastante inesperadas: afinal, por que escrever ou falar “Naomi” em vez de “Wolf” soa melhor para mim? Será que é só estética mesmo?

As lições de Rushdie

No seu livro de memórias, Salman Rushdie conta como, na sua infância, seu pai Anis muitas vezes lhe contava histórias tradicionais na hora de dormir (das Mil e Uma Noites, por exemplo), e sempre mudando trechos, cortando partes, acrescentando personagens etc. Isso ensinou ao jovem Salman duas lições importantes: a primeira foi que aquelas histórias não eram reais – claro, não existiam gênios em lâmpadas, ou tapetes voadores, ou coisas do estilo – mas exatamente por serem irreais elas podiam te fazer sentir e aprender verdades de um jeito que uma simples apresentação de fatos seria incapaz de fazer. A segunda lição foi que histórias pertenciam a ele, Salman, assim como pertenciam ao pai dele, Anis, fossem histórias alegres ou tristes, fossem sagradas ou profanas, e era o direito inalienável dele se apossar das histórias e fazer delas o que bem entendesse: alterá-las, renová-las, descartá-las e eventualmente resgatá-las, dar vida a elas ao amá-las, deixar que elas deem vida a ele. Afinal de contas, das criaturas terrestres, o homem é a única que conta histórias para si mesma, tentando entender que tipo de ser ela é.

Acho que a segunda lição está lindamente expressa pelo próprio Rushdie, e não é muito difícil encontrar excelentes exemplos da sua aplicação – para não me restringir à literatura, o Tarantino deixa claro aqui que mesmo a Bíblia é um texto como qualquer outro e pode ser transformado de acordo com nossas sensibilidades artísticas (na dúvida, é só olhar o capítulo 25, versículo 17 do livro de Ezequiel). A primeira lição me parece mais intrigante e, ao mesmo tempo, mais difícil de absorver: qual é a “verdade” trazida pelo texto fictício que vai além da mera exposição de fatos? Ou, indo mais além: o que é “verdade”?

Muita gente já falou do valor da ficção em comparação com outras formas de prosa. Entre vários outros, temos o americano E.L. Doctorow:

O historiador vai te dizer o que aconteceu, o romancista vai te dizer qual foi a sensação.

Ou o que o brasileiro Caio Fernando Abreu ouviu do terapeuta dele certa vez:

Os escritores, os ficcionistas e os poetas são os biógrafos da emoção. Se alguém, no ano de 2010, quiser saber o que as pessoas sentiam nos anos 80, ele não vai ler Veja, o Estado de São Paulo, o Jornal do Brasil; ele vai pegar a ficção, os poetas. Você tem que estar consciente de que a tua função social é fazer esta biografia do emocional.

Ou então, para encerrar, o que o cineasta John Waters deu de conselho de leitura:

Você nunca deveria ler só pra ‘se divertir.’ Leia para ficar mais inteligente! Para julgar menos. Mais apto a entender o comportamento insano dos seus amigos; ou melhor ainda, o seu próprio. Escolha ‘livros difíceis.’ Aqueles que exigem que você se concentre enquanto lê. E pelo amor de Deus, não me venha jamais com essa conversa de ‘eu não tenho tempo para ficção, eu só tenho tempo para a verdade.’ Ficção é a verdade, seu tonto! Já ouviu falar de ‘literatura’? Literatura é ficção também, idiota.

Enfim, coloquei todas estas belas frases mas ainda não respondi (Doctorow, Abreu e Waters também não responderam): onde está a “verdade” na ficção? Como eu fiz com a primeira lição do Rushdie, vou sair da literatura, mas agora pegando um exemplo do rock. A música “The night they drove old Dixie down“, da banda canadense The Band, conta a história de um soldado que lutou na Guerra Civil americana do lado dos Confederados. A música foi escrita por um não-estadunidense e não-historiador, o que, segundo alguns, fica evidente na qualidade da letra, tão rasa quanto um artigo da Wikipédia. Apesar disso, ela transmite algo aos ouvintes sobre aquele conflito que nenhum livro de história, ou nenhuma fonte primária, é capaz de fornecer. Mas transmite o quê? Será o “senso humano de história”, ou “como ela capta o custo pessoal daquela causa perdida”, de acordo com este artigo (com o qual, aliás, eu concordo)? Ou será tudo isso e algo mais? Em se tratando de arte, ainda mais arte que vem se mostrando popular há tanto tempo, é difícil dizer.

No final, acho que vale para a verdade o que vale para muitos outros conceitos: mesmo sem saber definir, a gente sabe o que é quando a encontra. Inclusive na arte.

(As traduções do inglês são todas minhas.)

A arte da guerra, de Moltke a Mike

Quem falou melhor?

Opção 1:

Nenhum plano de operação se estende (com certo grau de certeza) além do primeiro encontro com a força principal do inimigo.

Helmuth von Moltke, marechal-de-campo prussiano do século XIX e estudioso da guerra

Opção 2:

Todo mundo tem um plano até tomar um soco na boca.

Mike Tyson

(As traduções são minhas.)