10 grandes capas de discos

Para tirar a poeira deste site, decidi fazer um tributo a algumas capas de discos que não recebem a atenção que merecem, pelo menos na minha opinião. Ou seja, na lista que segue, evito escolhas óbvias como Sgt. Pepper e Abbey Road (e qualquer outra produção dos Beatles, na verdade), Nevermind, Dark Side of the Moon, Aladdin Sane e tantas outras capas clássicas. Aqui vai minha seleção, sem qualquer ordem de preferência:

  • My Bloody Valentine, Loveless. Talvez a minha capa de disco favorita. Além de visualmente lindíssima, ela espelha de maneira muito fiel o conteúdo do disco. O que tem nas músicas? Guitarra e distorção? Na capa também tem.
  • King Crimson, In the Court of the Crimson King. O próprio líder da banda, Robert Fripp, diz que a capa reflete a música contida no disco. Mas o motivo que me fez incluir esta capa na minha lista é que se trata de uma imagem bela (nisso, a banda concordou, também de acordo com um comentário do Fripp) e de certa simplicidade, ainda mais comparada com o que outras bandas de rock progressivo costumavam colocar em suas capas.
  • Franz Ferdinand, Franz Ferdinand. Certamente eles não são os únicos, mas foram os que me chamaram a atenção pela forma como incorporaram nesta capa (e nas dos singles extraídos do álbum) elementos da arte de vanguarda russa do começo do século XX, particularmente do artista El Lissitzky. Para o disco seguinte, You Could Have it So Much Better, a banda continuou esse movimento de “apropriação”, se podemos falar assim, mas desta vez usando como inspiração o artista Alexander Rodchenko.
  • Wings, Venus and Mars. Criação do Storm Thorgerson, responsável por, entre outras capas clássicas, Dark Side of the Moon. Quer jeito mais simples, e ao mesmo tempo mais elegante, de representar os planetas mais próximos da Terra?
  • T. Rex, Electric Warrior. Mais uma obra do Thorgerson. No meu conceito, a capa ganha vários pontos por usar apenas dois tons, preto e dourado; além disso, ela tem uma estética glam rock mais impactante do que qualquer capa do David Bowie (o outro grande expoente do subgênero). Você olha para o Marc Bolan na imagem, e não consegue pensar nele senão como um “Guerreiro Elétrico.”
  • Faces, Five Guys Walk into a Bar… Para uma caixa de quatro CDs representando toda a história desta banda, o título é perfeito. E os integrantes dos Faces são a imagem perfeita para os tais “cinco caras” entrando no bar.
  • Jeff Beck, Jeff Beck’s Guitar Shop. Nunca ouvi este disco, mas sempre achei esta capa divertida – não só por ser um desenho muito bem-feito, mas também pelo conceito de um “mecânico de guitarras”.
  • Cream, Disraeli Gears. Das capas que eu escolhi para esta lista, talvez esta seja a mais visualmente “poluída”. Ao mesmo tempo, como muitas das seleções que aparecem aqui, é uma capa fiel à música dentro dela: a imagem transborda de psicodelia.
  • Iggy and the Stooges, Raw Power. Fiquei na dúvida sobre qual disco dos Stooges incluir aqui – eu também gosto muito da capa de Fun House, por ser um retrato fiel do caos presente em várias das músicas que aparecem lá, em particular a última, “L.A. Blues”. Mas decidi ficar com Raw Power porque, em contraponto a vários itens desta lista, ela tem um certo ar de mistério, principalmente para quem nunca viu nem ouviu o Iggy Pop. Qual é a desse cara sem camisa segurando o microfone, maquiado e de calça brilhante? É glam rock o som? (Lembrando que o Bowie foi o produtor.)
  • Lou Reed, Coney Island Baby. E falando em mistério, e em carreiras resgatadas pelo Bowie… Eu vejo esta capa e, conhecendo o dom do Lou Reed para criar histórias nas suas letras, fico imaginando as histórias de amor passadas no submundo nova-iorquino que devem ser contadas no disco. Ao mesmo tempo, não tenho coragem de ouvi-lo, para não correr o risco de me decepcionar…

Lebowitz, Roth, Levi, e os livros como portas

Eu queria usar de novo uma frase que apareceu em um texto anterior meu neste site. É da escritora Fran Lebowitz, dita no documentário sobre ela dirigido pelo Martin Scorsese: um livro não deve ser um espelho. Deve ser uma porta! A Lebowitz se refere ao fato de que ela não se via retratada nos livros que ela devorava durante sua infância e adolescência numa cidadezinha no interior de New Jersey, e que isso, longe de ser um problema, era o que fazia deles fascinantes.

Como eu não assisti ao documentário do Scorsese, não sei se ela explora mais essa analogia dos livros como portas, por isso vou supor que ela para por aí. Quem eu sei que fala mais a respeito, ainda que por outros caminhos, é outra cria de New Jersey, Philip Roth (de quem já falei algumas vezes neste site e, lamento dizer, certamente ainda vou falar muito). Em Roth Unbound, um estudo crítico da vida e da obra do romancista preparado pela jornalista Claudia Roth Pierpont (sem parentesco), é relatada uma discussão que acontece durante uma palestra dada pelo Roth no Bard College, perto de Nova York. A uma aluna que se mostrou confusa por se identificar mais frequentemente com os personagens masculinos nos livros que ela lia quando era mais jovem (uma situação, acrescento eu, não muito diferente daquela da Lebowitz), ele ofereceu a explicação:

… ele disse aos estudantes que, depois de crescer em “um ambiente extremamente judeu,” ele descobriu que havia muito poucos judeus na literatura, exceto alguns personagens feitos para “serem objetos de piadas” em T.S. Eliot ou Hemingway. Como poderia se esperar que ele se “identificasse” com os personagens de um escritor cristão como Dostoiévski? Como? Através da própria literatura, ele lhes diz – literatura, na qual nós podemos nos identificar com qualquer um e nos tornar maior do que nós mesmos.

Como eu entendo essa resposta, brilhante, do Roth: um grande livro pode estar bem longe de refletir a nossa experiência de vida, mas só de encontrarmos nele alguma coisa, pequena que seja, que toque de forma profunda em nós, podemos fazer com que o universo do livro se incorpore ao nosso universo, e assim nossa realidade fica engrandecida. Ou, usando a analogia da Lebowitz, essa identificação da qual o Roth fala seria uma chave que abre a porta do livro para nós.

O que me lembra uma frase do autor italiano, e sobrevivente de Auschwitz, Primo Levi, por quem, coincidentemente, o Roth nutria uma grande admiração e um grande afeto. Disse o Levi: escrever é uma transmissão; e se a mensagem for cifrada e ninguém souber a chave? Se eu entendi o Roth corretamente, cabe a cada um de nós saber ou não a chave, e aí sim (usando livremente os vários significados do termo “chave”) abrir e atravessar a porta da qual a Lebowitz falou.

(Todas as traduções são minhas.)

O que fazer com artistas “cancelados”

O autor inglês Ray Monk abre sua biografia do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein com a seguinte frase, do também austríaco Otto Weininger:

Lógica e ética são essencialmente a mesma coisa – dever para consigo mesmo.

Eu gosto demais desta frase. Para mim, ela tem o ar de uma afirmação matemática, o que faz dela até um pouco pretensiosa; mesmo assim, eu tenho percebido que a ideia contida na frase é bastante poderosa, e pode ser aplicada tanto em lógica quanto em ética.

Mas é por outro motivo que eu apresento a afirmação acima. Eu aplico a frase, e falo dela sempre que posso, apesar de saber que o autor dela era antissemita (mesmo sendo judeu), homofóbico (mesmo sendo homossexual) e misógino, e defendia abertamente todas estas posturas em suas publicações. Juntando a citação no começo deste texto com as visões que o Weininger propagava, talvez não surpreenda que ele mesmo tenha racionalmente concluído a futilidade de continuar vivendo – e se suicidou.

Eu tinha dito num texto anterior que não sabia se era aceitável continuar consumindo as obras de pessoas “canceladas” como o Polanski e o Bill Cosby. E eu acabei de demonstrar, com o exemplo do Weininger, que eu acho isso aceitável, sim, pelo menos em algumas situações. O que aconteceu foi o seguinte: eu sou assinante da mailing list do Daily Stoic, e um dos emails diários que eu recebi tinha um trecho que me fez lembrar do austríaco. O email menciona o documentário dirigido pelo Martin Scorsese sobre a autora Fran Lebowitz, no qual ela discute a paixão dela por livros – livros que, frequentemente, tinham muito pouco a ver com a experiência de vida dela – : “um livro não deve ser um espelho. Deve ser uma porta!”

Me parece que esta é uma forma útil de pensar não só em livros, mas também em músicas, filmes… Ou, nas lembranças do autor Ryan Holiday (coincidentemente, o responsável pela mailing list do Daily Stoic):

Meu editor disse para mim uma vez, “não é o que um livro é” – quem escreveu, quais são suas intenções – “é o que um livro faz.”

Essa separação que eu proponho para a arte nós já fazemos em outros domínios, não? Muitos estrangeiros que vão a Londres admiram a elegância e a simplicidade das placas de sinalização em estações de trem, ruas, prédios públicos etc. Será que a admiração diminuiria se eles soubessem sobre a vida íntima do criador das fontes usadas na maioria dessas placas? E agora mesmo, escrevo no Dia Internacional de Conscientização do Autismo, condição que deve muitas de suas primeiras descobertas a um médico associado ao nazismo. Isso invalida suas contribuições? Poderia listar vários outros exemplos.

É claro que a nossa vivência como consumidores de cultura pode mudar ao sabermos mais sobre seus criadores – nesta entrevista com o Jerry Seinfeld (a partir do minuto 6), o Stephen Colbert diz exatamente que já não consegue mais ouvir os discos antigos do Bill Cosby. Mas, a meu ver, faz mais sentido tratar estas mudanças como reações emocionais e individuais, e não como regras fixas e universais. Ao agir assim, corremos o risco de parecer contraditórios e, usando o exemplo do meu primeiro texto, rejeitar “Billie Jean” enquanto continuamos abraçando “Imagine”. Mas não é da natureza humana ser contraditório?

(Todas as traduções são minhas.)

Auster é melhor do que eu (mesmo na imaginação)

O grande e saudoso Philip Roth não perdia uma chance de dizer o quão doloroso era escrever – apenas um dentre vários outros exemplos é a frase que aparece nesta coletânea:

Escrever é frustração – é frustração diária, sem contar a humilhação. É como no beisebol: você fracassa dois terços do tempo.

Não que seja de grande importância, e a verdade é que nem ocorre o tempo todo, mas preciso confessar que eu compartilho um bocadinho dessa sensação quando escrevo para este site – e talvez por isso eu não me aventure a textos mais longos do que um par de páginas. O curioso é que, pelo menos no meu caso, esse desconforto vem acompanhado de, ou até mesmo causado por, uma pergunta martelando na minha cabeça: para que continuar, se alguém certamente já escreveu isso aí, e bem melhor do que você? (Será que isso incomodava o Roth também?)

Recentemente, lembrei dessa inquietação minha não por causa de algo que eu estava tentando escrever, mas simplesmente de reflexões num dia qualquer. Que pai nunca temeu ser incapaz de criar seus filhos da forma correta, e as consequências dessa incapacidade? Eu, com duas crianças pequenas, certamente não estou imune a essas angústias. (Claro, não estou excluindo mães desta situação, mas quero falar da minha experiência específica.) Eventualmente, e não da forma articulada como estou expressando aqui, me acostumei à ideia de que um ideal elevado o bastante é chegar a ser um “pai bom o suficiente” – um conceito que eu aprendi graças a uma entrevista do filósofo Alain de Botton.

Mas voltando ao Roth. Ou não voltando, porque não vou falar mais dele, mas da sensação que às vezes eu tenho de que tudo já foi escrito (ou pelo menos tudo o que eu quero escrever), e de forma bem melhor do que eu poderia ter feito. Eu não tinha nada para escrever a respeito da paternidade naquele momento, mas, pensando nessa ideia do “pai bom o suficiente”, me ocorreu que, mesmo que esse ideal modesto não seja alcançado (por mim ou por quem quer que seja), não há razão para críticas ou autocríticas ou nada do estilo. E ainda bem que eu não pretendia escrever a respeito, porque, de fato, já fizeram isso de forma primorosa.

Numa das cenas do excelente 4 3 2 1, do romancista Paul Auster, para mim uma espécie de herdeiro artístico do Roth (e não só porque também é judeu nascido em Newark), o personagem central, Archie, analisa a relação, muitas vezes conflituosa, entre o seu tio divorciado Don e o filho deste, Noah:

Resumindo, ele concluiu que o tio Don era um bom pai – um pai imperfeito, talvez, até mesmo um pai fracassado – mas ainda assim um bom pai. E o primo Noah era um excelente amigo, ainda que ele pudesse ser um pouquinho louco às vezes.

Eu já escrevi antes sobre o poder da ficção de transmitir a verdade, e aqui está um ótimo exemplo. É bom ser um pai “bom o suficiente”, claro, mas já não está de bom tamanho ser só um “bom pai”, mesmo com nossas falhas e fracassos? Algo que talvez todos nós, pais e mães, já sejamos, se nos permitirmos um olhar sincero e generoso no espelho? Ainda bem que eu sequer pensei nessa ideia, porque o que o Auster de fato pôs no papel teria ganhado dela, e de lavada.

(Todas as traduções são minhas.)

A verdade nos detalhes

Um amigo meu, quando ia viajar a passeio para algum país e queria comprar um guia de viagem, usava uma técnica bem especial. Digamos que ele quisesse ir à França; então ele pegava na livraria alguns guias de viagem sobre o Brasil (Frommer’s, Lonely Planet, Fodor’s etc.), lia algumas páginas de cada um deles, e se o melhor desses guias fosse, digamos, o Lonely Planet, ele comprava o Lonely Planet sobre a França. O raciocínio desse meu amigo era que, se um certo guia descrevia fielmente o nosso país, havia uma boa chance dele também ser preciso nas explicações sobre o país que ele queria visitar.

A técnica desse meu amigo me veio à cabeça quando eu li este trecho do romance Americanah, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (quem eu já mencionei antes neste site, me parece), em que o nigeriano Obinze conversa com seu colega de trabalho brasileiro “Duedirnhito” (a tradução é minha):

Eles conversaram, enquanto esvaziavam seus aspiradores de pó, sobre as Olimpíadas de 1996, Obinze se gabando sobre a Nigéria ganhar do Brasil e depois da Argentina.

“O Kanu era bom, eu reconheço,” Duedirnhito disse. “Mas a Nigéria teve sorte.”

Minha única questão com esse trecho é com o apelido do brasileiro. “Duedirnhito”? Uma possibilidade é que, numa situação em que tanto ele quanto o Obinze são imigrantes (a ação se passa na Inglaterra), não há como saber quem criou esse apelido. É como naquele filme A Rede Social, em que o brasileiro Eduardo Saverin, co-criador do Facebook, é chamado pelos seus amigos americanos de “Wardo” (um apelido que ele nunca teria no Brasil). De resto, a presença do personagem brasileiro no texto é perfeita, a meu ver. Eu, no lugar do “Duedirnhito”, conversando com um nigeriano, teria feito praticamente essa mesma observação – sobre o Kanu, por exemplo, até porque eu lembro muita coisa sobre esse jogo (4 a 3 na prorrogação, gol de ouro, depois de estar 3 a 1 para o Brasil, Kanu fez sei lá quantos gols, Roberto Carlos fez algumas bobagens…).

Fazendo a analogia com aquela técnica para comprar guias de viagem do meu amigo: vendo como a Adichie descreve um personagem brasileiro, eu fico mais confiante de que ela vai ser fiel na descrição de objetos, pessoas, lugares etc. de outros países: da Nigéria (onde ela nasceu e cresceu), dos EUA (onde ela mora parte do tempo), da Inglaterra (onde não sei se ela chegou a morar, mas para onde muitos nigerianos emigram)… Essa fidelidade é imprescindível? Em textos de ficção, como Americanah, talvez sim, talvez não; acho que cada leitor pode decidir essa questão por conta própria. Aqui, eu falo por mim: já escrevi antes sobre como, na arte, às vezes esperamos encontrar a verdade, um conceito difícil de definir, e que está relacionado aos fatos – não sempre, não necessariamente, mas às vezes. Se, nesse pequeno trecho de Americanah, a Adichie não tivesse tido um mínimo de cuidado com os fatos, será que ela seria capaz de transmitir a verdade dela no romance todo? (É por isso, por exemplo, que não me desce aquela música do Clash “Spanish Bombs”, tão adorada por tantos; a mensagem pode ser boa, mas eles podiam ter um pouco mais de cuidado com o espanhol, não?)

Contra a filosofia, contra os filósofos

1. Antes de mais nada, eu só gostaria de deixar registrado que este texto não é uma crítica à filosofia como um todo, nem à filosofia como opção profissional ou curso universitário, nem a todos os filósofos tomados indiscriminadamente. Me refiro apenas a algumas formas bem específicas de se “praticar filosofia”, se é que podemos falar assim. Enfim, espero que o restante do texto deixe claro o que eu quero dizer.

2. Sim, eu percebo a ironia de escrever algo com o suposto intuito de criticar a filosofia ao mesmo tempo em que uso uma estrutura que encontramos nos livros de, entre outros, Descartes e Hume. Falando nisso, o Hume é um dos autores da “categoria” mais palatáveis para mim (dentre os bem poucos que eu li, deixando bem claro). Quando o Nassim Taleb escreve na Lógica do Cisne Negro que “Hume escreve com tanta clareza que ele faz passar vergonha quase todos os atuais pensadores, e certamente todos os clássicos alemães”, a impressão que eu tenho é que ele foi generoso (com os outros) ao usar clareza: me parece que o termo certo seria inteligibilidade. Pronto, acho que já estou no modo que prometi com o título.

3. Continuando com o Hume. Recentemente eu me dei conta do problema que eu tinha com certas questões que os filósofos insistiam em debater ao longo de todos esses séculos. Num trecho da Investigação sobre o Entendimento Humano, aparece a seguinte discussão:

Esta mesa aqui, que se mostra branca aos olhos, e dura ao contato, nós acreditamos existir, independentemente da nossa percepção, e ser algo externo à nossa mente que a percebe.

Deixando de lado o mérito da discussão: o homem me vem falar de mesa? Sério, mesa?!?! Só nos últimos dias, eu estava relendo O Velho e o Mar, O Grande Gatsby e O Coração das Trevas, livros de que eu nem gosto muito (talvez algum dia eu explique por que eu fiz isso). Um livro fala da batalha épica de um pescador contra um peixe gigante, outro fala de gente rica e fútil nos subúrbios de Nova York, e outro fala de um explorador europeu que endoideceu no interior da África; uns livros mais interessantes, outros menos, mas todos eles ganham de longe de uma discussão sobre uma mesa. Para todos aqueles que enxergam certa futilidade nas conversas filosóficas, eu deixo esta passagem do Hume como manifestação de apoio.

4. Por outro lado, nesse mesmo livro do escocês aparece uma descrição bastante precisa do que eu entendo como “fazer filosofia”, não só no ambiente acadêmico, mas em qualquer lugar. Escreve o Hume:

… as decisões filosóficas não são nada mais do que as reflexões da vida comum, metodizadas e corrigidas.

Ou seja, e simplificando ainda mais: filosofar é pensar melhor.

5. Esse incômodo que eu senti quando li o Hume não é exclusividade minha. O autor e professor Jason Rosenhouse escreveu um livro sobre o problema de Monty Hall, uma das charadas mais populares da história recente da matemática. O Rosenhouse investiga o problema sob diversos aspectos além do teórico – histórico, psicológico, filosófico etc. E ele tem uma observação interessante sobre a pilha de livros e artigos filosóficos que abordaram esse problema:

No final, a minha reação ao que eu li é típica à minha reação à literatura filosófica em geral. É sutil, cheia de nuance, absolutamente inventiva, e, em última análise, não lá muito importante.

6. Quando eu pus “contra os filósofos” no título do texto, eu tinha em mente especificamente o trecho de uma entrevista que o autor francês, e ganhador do Prêmio Nobel, Claude Simon deu à revista Paris Review:

– Então você não se considera um filósofo?

– Certamente não. Eu nem estudei filosofia na escola. Eu estudei matemática. Em geral, eu desconfio da filosofia. Platão recomendou expulsar os poetas da cidade; o “grande” Heidegger era nazista; Lukács era um comunista; e J.P. Sartre escreveu: “todo anti-comunista é um cão”.

Eu estou pensando aqui: o entrevistador se perguntou, e perguntou ao Simon, se ele se achava um filósofo, justamente alguém que (como se revelou) tinha forte repulsão pela “categoria”. Será que é necessário ser filósofo para se envolver com o tipo de problemas e de questões que normalmente se associam à filosofia? Não seria a ficção, por exemplo, um caminho? (Não sou, nem de longe, o primeiro a levantar a questão; o tema “literatura vs. filosofia”, ou “literatura + filosofia”, é BEM antigo…)

7. Não esgotei o tema, mas se for o caso, vou deixar para falar mais em um outro texto. Para encerrar, deixo outra forma alternativa de se fazer filosofia, que não sei se é tão simples de ser aplicada quanto aquela proposta pelo Hume. Esta é do conterrâneo do Simon, Blaise Pascal:

Zombar da filosofia é filosofar de verdade.

Uma tradução: Borges, Os justos

Os justos, poema de Jorge Luis Borges

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na Terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que, num café do sul, jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de um certo canto.
O que acaricia um animal dormido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na Terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão salvando o mundo.

(A tradução é minha. Aqui, estou aplicando as dicas que expus em outro texto neste site. Aqui está o poema original, e não é difícil achar no Google traduções em português ou em inglês. Evitei ao máximo ver como outros tradutores fizeram, mas no final acabei não resistindo bisbilhotar como eles lidaram com uma palavra ou outra – ‘tierra’ é em maiúscula ou minúscula?…)

Lições turísticas, com Trefethen e Arlt

Já falei da coletânea de fichas do matemático Lloyd Trefethen em outro texto neste site. Aqui vai mais uma meditação interessante do Trefethen publicada naquele livro:

Numa exposição breve, a cultura estrangeira pode parecer mais estrangeira do que ela realmente é. Naturalmente, nós nos fixamos nos cheiros estranhos e nos costumes desconhecidos, e, particularmente se a língua e diferente, pode ser difícil ver que, atrás disso tudo, essas pessoas não são lá muito diferentes de nós. Assim, não é garantido que uma semana em Bombaim vá te tornar mais cosmopolita; é possível que te torne mais intolerante. Qual será o caso vai depender muito das teorias na sua cabeça com as quais você vai interpretar a experiência.

Se, em vez disso, você ficar em casa lendo um livro sobre a Índia, você perde o imediatismo do confronto com homens escuros de turbantes, o cheiro de curry, e o indecifrável hindi. Por conta disso, a impressão que você tem pode ser mais realista. Descritos no nosso idioma, os indianos começam a parecer mais ou menos como nós mesmos – o que, numa primeira aproximação, é certamente a conclusão correta.

A lição que eu tiro desta passagem, e não digo que seja a única possível: há certas coisas que só podem ser apreciadas através da experiência de viajar, principalmente no que se refere à visita de lugares. Quer ver a Torre Eiffel, não tem jeito, vai ter que ir a Paris, embora tenham feito uma réplica bem fiel, mas menorzinha, em Las Vegas; quer conhecer o Grand Canyon, infelizmente, só no Arizona mesmo (e esse vai ser bem difícil de copiar). Agora, se seu objetivo for conhecer, conviver, ter novas experiências com pessoas… bom, viajar pode ser inútil, e até mesmo nocivo. Tudo vai depender da sua postura em face das experiências do cotidiano, isso antes mesmo de você arrumar qualquer mala.

Esta passagem me lembrou um alerta dado pelo autor argentino Roberto Arlt, muitas décadas antes da publicação daquela coletânea de fichas. Na crônica “O prazer de vagabundear”, que apareceria na compilação Aguafortes Portenhas, ele defende a caminhada sem destino fixo pelas ruas da sua cidade – Buenos Aires, no caso do Arlt. Ele diz em um trecho da crônica (citando, coincidentemente, a Índia usada pelo Trefethen):

… cheguei à conclusão de que aquele que não encontra todo o universo contido nas ruas da sua cidade, não encontrará uma rua original em nenhuma das cidades do mundo. E não as encontrará, porque o cego em Buenos Aires é cego em Madri ou em Calcutá…

(Todas as traduções são minhas.)

Tolstói estilista vs. Tolstói moralista

O russo, eventualmente naturalizado norte-americano, Vladimir Nabokov considerava o seu conterrâneo Liev Tolstói um gênio das letras, no mesmo nível de outros gigantes como Shakespeare, Milton e Púchkin. Mas o Nabokov era bastante seletivo em seus elogios: por exemplo, ele adorava Anna Karenina e A Morte de Ivan Ilitch, mas detestava Ressurreição e A Sonata a Kreutzer (Guerra e Paz tem pontos positivos e negativos, segundo ele). Além disso, o autor de Lolita admirava os talentos do Tolstói apenas como prosador – segundo aquele, “no longo prazo, ninguém levaria realmente a sério o moralismo utilitário” deste. Curiosamente, esta visão do Tolstói moralista por parte do Nabokov encontra um certo eco na obra do filósofo inglês Bertrand Russell; pelo menos essa é a impressão que eu tenho ao ler este trecho da sua História da Filosofia Ocidental, numa referência às Confissões do Santo Agostinho: “Este livro teve vários imitadores, particularmente Tolstói e Rousseau… Santo Agostinho é, em certos aspectos, similar a Tolstói, a quem, entretanto, ele é superior em intelecto.”

Mas voltando ao Nabokov. Não sei se ele tinha alguma passagem específica do Tolstói em mente quando ele fez aquela crítica ao moralismo deste. Eu sei que eu lembrei dessa crítica quando me deparei com este trecho do Calendário de Sabedoria, uma compilação de máximas preparada pelo Tólstoi nos últimos anos de sua vida:

Não existe o passado e não existe o futuro; nunca ninguém adentrou esses dois reinos imaginários. Só existe o presente. Não se preocupe com o futuro, porque não existe o futuro. Viva no presente e para o presente, e se o seu presente for bom, então ele será bom para sempre.

Que tal essa imagem dos “dois reinos imaginários”? Não é sensacional? Se alguém está à procura de evidências do senso estético do homem, aqui está. Quanto ao resto da passagem… Para mim, nada diferente do que poderíamos encontrar num livro genérico de auto-ajuda à venda em qualquer livraria de aeroporto – que, confesso, nunca li, mas desafio qualquer um a demonstrar que falei bobagem. No final das contas, o Vladimir não estava tão errado na sua apreciação, certo?

Me parece que o que incomodava o Nabokov não era o moralismo em si, tanto que ele até era fã da Morte de Ivan Ilitch, um texto com forte conteúdo moral. O problema era quando a mensagem moral vinha “embalada” em prosa deficiente. E eu tendo a concordar com ele: posso até me identificar com o trecho que eu citei, mas ele é memorável como (para ficarmos no mesmo autor) a frase que abre Anna Karenina? Isto nos leva a uma discussão sobre o papel moral, ou social, da literatura, um assunto sobre o qual o Nabokov falou e escreveu eventualmente. Mas isso vai ficar para outra hora.

(Todas as traduções são minhas; a do Calendário de Sabedoria foi a partir da versão em inglês, traduzida pelo Peter Sekirin. As citações do Nabokov vêm da coletânea de entrevistas e artigos Strong Opinions.)

A Escandinávia funciona mesmo?

No nosso país, é bastante comum certa visão de que as coisas no dito Primeiro Mundo “funcionam”: não existe pobreza, as leis são cumpridas por todos, as ruas das cidades são limpas e organizadas, e por aí vai. Ainda que muito disto seja verdade, certamente há muita coisa nestes países que foge da imagem paradisíaca que formamos deles.

Um livro publicado há alguns anos (The Almost Nearly Perfect People, do jornalista inglês Michael Booth) nos permite apreciar melhor a situação verdadeira nos países nórdicos, que costumam liderar os rankings mundiais de qualidade de vida, desigualdade social, felicidade da população etc. Com o livro, o Booth, que é casado com uma dinamarquesa e mora na Dinamarca, busca desvendar o segredo para que os escandinavos tenham conseguido construir sociedades tão bem-sucedidas – e no processo, acaba descobrindo que nem tudo são flores por lá.

Muitos dos achados do Booth são fascinantes, e surpreendentes para os que olham para países como Suécia e Dinamarca como lugares… bom, quase aproximadamente perfeitos, como diz o título do livro. Vou mostrar só alguns deles na lista abaixo. Você sabia…

  • que bestialismo não é crime na Dinamarca, e que aproximadamente 7 por cento dos dinamarqueses adotam a prática? (Como diz o Booth: “da próxima vez que você assistir a um jogo da seleção dinamarquesa de futebol, pense no seguinte: existe uma boa chance de que pelo menos um dos jogadores tenha transado com um quadrúpede.”)
  • que, apesar de todo o marketing, a Dinamarca tem a maior pegada ecológica per capita do mundo (dados de 2012), perdendo apenas para três países do Golfo Pérsico e à frente dos EUA? que é a maior exportadora de petróleo da União Europeia? que a maior parte de sua energia vem de usinas de carvão? que a sua maior empresa (Maersk) é a maior empresa de transportes marítimos do mundo (que poluem duas vezes mais do que os transportes aéreos)?
  • que a Statoil, a empresa estatal norueguesa que controla a extração de petróleo no país, foi denunciada pelo Greenpeace por práticas altamente danosas ao meio ambiente, e pela revista Business Week por pagamentos ilícitos a autoridades iranianas?
  • que a Suécia até 2010 foi governada pelos social-democratas, que comandaram o país de forma praticamente ininterrupta por boa parte do século XX? criando assim o que o Booth chamou de ‘totalitarismo benigno’, ou um governo que exerce um forte controle sobre diversos aspectos da sociedade sueca – resultando, inclusive, num programa de esterilização forçada, vitimando em torno de sessenta mil mulheres entre 1935 e 1976?

Tudo isto quer dizer que, respondendo à pergunta do título deste texto, a Escandinávia não funciona? Eu não diria isso, muito pelo contrário. Claro, por causa dos fatos que eu citei, e de muitos outros (nem falei do frio, do qual os brasileiros, em particular, tendem a não gostar), a Dinamarca, a Suécia e os seus vizinhos não são exatamente utopias. Mas continuam insubstituíveis como modelo de sociedade não só para brasileiros, mas também para ingleses, americanos, alemães, franceses… Prefiro deixar que o Booth explique (a tradução é minha):

Como disse Paul McCartney quando um jornalista sugeriu que o Álbum Branco poderia ter sido melhor como um disco simples em vez de duplo: ‘É, sim, mas sabe, ainda é o Álbum Branco.‘ Claro que há desvantagens em sociedades quase aproximadamente perfeitas: há esqueletos históricos em todo armário, e sim, países com tendências homogêneas e monoculturais tendem, sim, a ser um pouco seguros e enfadonhos demais, e isolados também. Olhando para o futuro, os países nórdicos se deparam com alguns desafios sérios – populações envelhecendo, estados de bem-estar rangendo, a integração das populações de imigrantes progredindo, e a desigualdade aumentando. Mas ainda é a Escandinávia. Ainda é o lugar de causar inveja, rico, pacífico, harmonioso e progressivo que sempre foi. Ainda é o Álbum Branco.