Lebowitz, Roth, Levi, e os livros como portas

Eu queria usar de novo uma frase que apareceu em um texto anterior meu neste site. É da escritora Fran Lebowitz, dita no documentário sobre ela dirigido pelo Martin Scorsese: um livro não deve ser um espelho. Deve ser uma porta! A Lebowitz se refere ao fato de que ela não se via retratada nos livros que ela devorava durante sua infância e adolescência numa cidadezinha no interior de New Jersey, e que isso, longe de ser um problema, era o que fazia deles fascinantes.

Como eu não assisti ao documentário do Scorsese, não sei se ela explora mais essa analogia dos livros como portas, por isso vou supor que ela para por aí. Quem eu sei que fala mais a respeito, ainda que por outros caminhos, é outra cria de New Jersey, Philip Roth (de quem já falei algumas vezes neste site e, lamento dizer, certamente ainda vou falar muito). Em Roth Unbound, um estudo crítico da vida e da obra do romancista preparado pela jornalista Claudia Roth Pierpont (sem parentesco), é relatada uma discussão que acontece durante uma palestra dada pelo Roth no Bard College, perto de Nova York. A uma aluna que se mostrou confusa por se identificar mais frequentemente com os personagens masculinos nos livros que ela lia quando era mais jovem (uma situação, acrescento eu, não muito diferente daquela da Lebowitz), ele ofereceu a explicação:

… ele disse aos estudantes que, depois de crescer em “um ambiente extremamente judeu,” ele descobriu que havia muito poucos judeus na literatura, exceto alguns personagens feitos para “serem objetos de piadas” em T.S. Eliot ou Hemingway. Como poderia se esperar que ele se “identificasse” com os personagens de um escritor cristão como Dostoiévski? Como? Através da própria literatura, ele lhes diz – literatura, na qual nós podemos nos identificar com qualquer um e nos tornar maior do que nós mesmos.

Como eu entendo essa resposta, brilhante, do Roth: um grande livro pode estar bem longe de refletir a nossa experiência de vida, mas só de encontrarmos nele alguma coisa, pequena que seja, que toque de forma profunda em nós, podemos fazer com que o universo do livro se incorpore ao nosso universo, e assim nossa realidade fica engrandecida. Ou, usando a analogia da Lebowitz, essa identificação da qual o Roth fala seria uma chave que abre a porta do livro para nós.

O que me lembra uma frase do autor italiano, e sobrevivente de Auschwitz, Primo Levi, por quem, coincidentemente, o Roth nutria uma grande admiração e um grande afeto. Disse o Levi: escrever é uma transmissão; e se a mensagem for cifrada e ninguém souber a chave? Se eu entendi o Roth corretamente, cabe a cada um de nós saber ou não a chave, e aí sim (usando livremente os vários significados do termo “chave”) abrir e atravessar a porta da qual a Lebowitz falou.

(Todas as traduções são minhas.)

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