O que fazer com artistas “cancelados”

O autor inglês Ray Monk abre sua biografia do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein com a seguinte frase, do também austríaco Otto Weininger:

Lógica e ética são essencialmente a mesma coisa – dever para consigo mesmo.

Eu gosto demais desta frase. Para mim, ela tem o ar de uma afirmação matemática, o que faz dela até um pouco pretensiosa; mesmo assim, eu tenho percebido que a ideia contida na frase é bastante poderosa, e pode ser aplicada tanto em lógica quanto em ética.

Mas é por outro motivo que eu apresento a afirmação acima. Eu aplico a frase, e falo dela sempre que posso, apesar de saber que o autor dela era antissemita (mesmo sendo judeu), homofóbico (mesmo sendo homossexual) e misógino, e defendia abertamente todas estas posturas em suas publicações. Juntando a citação no começo deste texto com as visões que o Weininger propagava, talvez não surpreenda que ele mesmo tenha racionalmente concluído a futilidade de continuar vivendo – e se suicidou.

Eu tinha dito num texto anterior que não sabia se era aceitável continuar consumindo as obras de pessoas “canceladas” como o Polanski e o Bill Cosby. E eu acabei de demonstrar, com o exemplo do Weininger, que eu acho isso aceitável, sim, pelo menos em algumas situações. O que aconteceu foi o seguinte: eu sou assinante da mailing list do Daily Stoic, e um dos emails diários que eu recebi tinha um trecho que me fez lembrar do austríaco. O email menciona o documentário dirigido pelo Martin Scorsese sobre a autora Fran Lebowitz, no qual ela discute a paixão dela por livros – livros que, frequentemente, tinham muito pouco a ver com a experiência de vida dela – : “um livro não deve ser um espelho. Deve ser uma porta!”

Me parece que esta é uma forma útil de pensar não só em livros, mas também em músicas, filmes… Ou, nas lembranças do autor Ryan Holiday (coincidentemente, o responsável pela mailing list do Daily Stoic):

Meu editor disse para mim uma vez, “não é o que um livro é” – quem escreveu, quais são suas intenções – “é o que um livro faz.”

Essa separação que eu proponho para a arte nós já fazemos em outros domínios, não? Muitos estrangeiros que vão a Londres admiram a elegância e a simplicidade das placas de sinalização em estações de trem, ruas, prédios públicos etc. Será que a admiração diminuiria se eles soubessem sobre a vida íntima do criador das fontes usadas na maioria dessas placas? E agora mesmo, escrevo no Dia Internacional de Conscientização do Autismo, condição que deve muitas de suas primeiras descobertas a um médico associado ao nazismo. Isso invalida suas contribuições? Poderia listar vários outros exemplos.

É claro que a nossa vivência como consumidores de cultura pode mudar ao sabermos mais sobre seus criadores – nesta entrevista com o Jerry Seinfeld (a partir do minuto 6), o Stephen Colbert diz exatamente que já não consegue mais ouvir os discos antigos do Bill Cosby. Mas, a meu ver, faz mais sentido tratar estas mudanças como reações emocionais e individuais, e não como regras fixas e universais. Ao agir assim, corremos o risco de parecer contraditórios e, usando o exemplo do meu primeiro texto, rejeitar “Billie Jean” enquanto continuamos abraçando “Imagine”. Mas não é da natureza humana ser contraditório?

(Todas as traduções são minhas.)

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