Auster é melhor do que eu (mesmo na imaginação)

O grande e saudoso Philip Roth não perdia uma chance de dizer o quão doloroso era escrever – apenas um dentre vários outros exemplos é a frase que aparece nesta coletânea:

Escrever é frustração – é frustração diária, sem contar a humilhação. É como no beisebol: você fracassa dois terços do tempo.

Não que seja de grande importância, e a verdade é que nem ocorre o tempo todo, mas preciso confessar que eu compartilho um bocadinho dessa sensação quando escrevo para este site – e talvez por isso eu não me aventure a textos mais longos do que um par de páginas. O curioso é que, pelo menos no meu caso, esse desconforto vem acompanhado de, ou até mesmo causado por, uma pergunta martelando na minha cabeça: para que continuar, se alguém certamente já escreveu isso aí, e bem melhor do que você? (Será que isso incomodava o Roth também?)

Recentemente, lembrei dessa inquietação minha não por causa de algo que eu estava tentando escrever, mas simplesmente de reflexões num dia qualquer. Que pai nunca temeu ser incapaz de criar seus filhos da forma correta, e as consequências dessa incapacidade? Eu, com duas crianças pequenas, certamente não estou imune a essas angústias. (Claro, não estou excluindo mães desta situação, mas quero falar da minha experiência específica.) Eventualmente, e não da forma articulada como estou expressando aqui, me acostumei à ideia de que um ideal elevado o bastante é chegar a ser um “pai bom o suficiente” – um conceito que eu aprendi graças a uma entrevista do filósofo Alain de Botton.

Mas voltando ao Roth. Ou não voltando, porque não vou falar mais dele, mas da sensação que às vezes eu tenho de que tudo já foi escrito (ou pelo menos tudo o que eu quero escrever), e de forma bem melhor do que eu poderia ter feito. Eu não tinha nada para escrever a respeito da paternidade naquele momento, mas, pensando nessa ideia do “pai bom o suficiente”, me ocorreu que, mesmo que esse ideal modesto não seja alcançado (por mim ou por quem quer que seja), não há razão para críticas ou autocríticas ou nada do estilo. E ainda bem que eu não pretendia escrever a respeito, porque, de fato, já fizeram isso de forma primorosa.

Numa das cenas do excelente 4 3 2 1, do romancista Paul Auster, para mim uma espécie de herdeiro artístico do Roth (e não só porque também é judeu nascido em Newark), o personagem central, Archie, analisa a relação, muitas vezes conflituosa, entre o seu tio divorciado Don e o filho deste, Noah:

Resumindo, ele concluiu que o tio Don era um bom pai – um pai imperfeito, talvez, até mesmo um pai fracassado – mas ainda assim um bom pai. E o primo Noah era um excelente amigo, ainda que ele pudesse ser um pouquinho louco às vezes.

Eu já escrevi antes sobre o poder da ficção de transmitir a verdade, e aqui está um ótimo exemplo. É bom ser um pai “bom o suficiente”, claro, mas já não está de bom tamanho ser só um “bom pai”, mesmo com nossas falhas e fracassos? Algo que talvez todos nós, pais e mães, já sejamos, se nos permitirmos um olhar sincero e generoso no espelho? Ainda bem que eu sequer pensei nessa ideia, porque o que o Auster de fato pôs no papel teria ganhado dela, e de lavada.

(Todas as traduções são minhas.)

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