A verdade nos detalhes

Um amigo meu, quando ia viajar a passeio para algum país e queria comprar um guia de viagem, usava uma técnica bem especial. Digamos que ele quisesse ir à França; então ele pegava na livraria alguns guias de viagem sobre o Brasil (Frommer’s, Lonely Planet, Fodor’s etc.), lia algumas páginas de cada um deles, e se o melhor desses guias fosse, digamos, o Lonely Planet, ele comprava o Lonely Planet sobre a França. O raciocínio desse meu amigo era que, se um certo guia descrevia fielmente o nosso país, havia uma boa chance dele também ser preciso nas explicações sobre o país que ele queria visitar.

A técnica desse meu amigo me veio à cabeça quando eu li este trecho do romance Americanah, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (quem eu já mencionei antes neste site, me parece), em que o nigeriano Obinze conversa com seu colega de trabalho brasileiro “Duedirnhito” (a tradução é minha):

Eles conversaram, enquanto esvaziavam seus aspiradores de pó, sobre as Olimpíadas de 1996, Obinze se gabando sobre a Nigéria ganhar do Brasil e depois da Argentina.

“O Kanu era bom, eu reconheço,” Duedirnhito disse. “Mas a Nigéria teve sorte.”

Minha única questão com esse trecho é com o apelido do brasileiro. “Duedirnhito”? Uma possibilidade é que, numa situação em que tanto ele quanto o Obinze são imigrantes (a ação se passa na Inglaterra), não há como saber quem criou esse apelido. É como naquele filme A Rede Social, em que o brasileiro Eduardo Saverin, co-criador do Facebook, é chamado pelos seus amigos americanos de “Wardo” (um apelido que ele nunca teria no Brasil). De resto, a presença do personagem brasileiro no texto é perfeita, a meu ver. Eu, no lugar do “Duedirnhito”, conversando com um nigeriano, teria feito praticamente essa mesma observação – sobre o Kanu, por exemplo, até porque eu lembro muita coisa sobre esse jogo (4 a 3 na prorrogação, gol de ouro, depois de estar 3 a 1 para o Brasil, Kanu fez sei lá quantos gols, Roberto Carlos fez algumas bobagens…).

Fazendo a analogia com aquela técnica para comprar guias de viagem do meu amigo: vendo como a Adichie descreve um personagem brasileiro, eu fico mais confiante de que ela vai ser fiel na descrição de objetos, pessoas, lugares etc. de outros países: da Nigéria (onde ela nasceu e cresceu), dos EUA (onde ela mora parte do tempo), da Inglaterra (onde não sei se ela chegou a morar, mas para onde muitos nigerianos emigram)… Essa fidelidade é imprescindível? Em textos de ficção, como Americanah, talvez sim, talvez não; acho que cada leitor pode decidir essa questão por conta própria. Aqui, eu falo por mim: já escrevi antes sobre como, na arte, às vezes esperamos encontrar a verdade, um conceito difícil de definir, e que está relacionado aos fatos – não sempre, não necessariamente, mas às vezes. Se, nesse pequeno trecho de Americanah, a Adichie não tivesse tido um mínimo de cuidado com os fatos, será que ela seria capaz de transmitir a verdade dela no romance todo? (É por isso, por exemplo, que não me desce aquela música do Clash “Spanish Bombs”, tão adorada por tantos; a mensagem pode ser boa, mas eles podiam ter um pouco mais de cuidado com o espanhol, não?)

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