Contra a filosofia, contra os filósofos

1. Antes de mais nada, eu só gostaria de deixar registrado que este texto não é uma crítica à filosofia como um todo, nem à filosofia como opção profissional ou curso universitário, nem a todos os filósofos tomados indiscriminadamente. Me refiro apenas a algumas formas bem específicas de se “praticar filosofia”, se é que podemos falar assim. Enfim, espero que o restante do texto deixe claro o que eu quero dizer.

2. Sim, eu percebo a ironia de escrever algo com o suposto intuito de criticar a filosofia ao mesmo tempo em que uso uma estrutura que encontramos nos livros de, entre outros, Descartes e Hume. Falando nisso, o Hume é um dos autores da “categoria” mais palatáveis para mim (dentre os bem poucos que eu li, deixando bem claro). Quando o Nassim Taleb escreve na Lógica do Cisne Negro que “Hume escreve com tanta clareza que ele faz passar vergonha quase todos os atuais pensadores, e certamente todos os clássicos alemães”, a impressão que eu tenho é que ele foi generoso (com os outros) ao usar clareza: me parece que o termo certo seria inteligibilidade. Pronto, acho que já estou no modo que prometi com o título.

3. Continuando com o Hume. Recentemente eu me dei conta do problema que eu tinha com certas questões que os filósofos insistiam em debater ao longo de todos esses séculos. Num trecho da Investigação sobre o Entendimento Humano, aparece a seguinte discussão:

Esta mesa aqui, que se mostra branca aos olhos, e dura ao contato, nós acreditamos existir, independentemente da nossa percepção, e ser algo externo à nossa mente que a percebe.

Deixando de lado o mérito da discussão: o homem me vem falar de mesa? Sério, mesa?!?! Só nos últimos dias, eu estava relendo O Velho e o Mar, O Grande Gatsby e O Coração das Trevas, livros de que eu nem gosto muito (talvez algum dia eu explique por que eu fiz isso). Um livro fala da batalha épica de um pescador contra um peixe gigante, outro fala de gente rica e fútil nos subúrbios de Nova York, e outro fala de um explorador europeu que endoideceu no interior da África; uns livros mais interessantes, outros menos, mas todos eles ganham de longe de uma discussão sobre uma mesa. Para todos aqueles que enxergam certa futilidade nas conversas filosóficas, eu deixo esta passagem do Hume como manifestação de apoio.

4. Por outro lado, nesse mesmo livro do escocês aparece uma descrição bastante precisa do que eu entendo como “fazer filosofia”, não só no ambiente acadêmico, mas em qualquer lugar. Escreve o Hume:

… as decisões filosóficas não são nada mais do que as reflexões da vida comum, metodizadas e corrigidas.

Ou seja, e simplificando ainda mais: filosofar é pensar melhor.

5. Esse incômodo que eu senti quando li o Hume não é exclusividade minha. O autor e professor Jason Rosenhouse escreveu um livro sobre o problema de Monty Hall, uma das charadas mais populares da história recente da matemática. O Rosenhouse investiga o problema sob diversos aspectos além do teórico – histórico, psicológico, filosófico etc. E ele tem uma observação interessante sobre a pilha de livros e artigos filosóficos que abordaram esse problema:

No final, a minha reação ao que eu li é típica à minha reação à literatura filosófica em geral. É sutil, cheia de nuance, absolutamente inventiva, e, em última análise, não lá muito importante.

6. Quando eu pus “contra os filósofos” no título do texto, eu tinha em mente especificamente o trecho de uma entrevista que o autor francês, e ganhador do Prêmio Nobel, Claude Simon deu à revista Paris Review:

– Então você não se considera um filósofo?

– Certamente não. Eu nem estudei filosofia na escola. Eu estudei matemática. Em geral, eu desconfio da filosofia. Platão recomendou expulsar os poetas da cidade; o “grande” Heidegger era nazista; Lukács era um comunista; e J.P. Sartre escreveu: “todo anti-comunista é um cão”.

Eu estou pensando aqui: o entrevistador se perguntou, e perguntou ao Simon, se ele se achava um filósofo, justamente alguém que (como se revelou) tinha forte repulsão pela “categoria”. Será que é necessário ser filósofo para se envolver com o tipo de problemas e de questões que normalmente se associam à filosofia? Não seria a ficção, por exemplo, um caminho? (Não sou, nem de longe, o primeiro a levantar a questão; o tema “literatura vs. filosofia”, ou “literatura + filosofia”, é BEM antigo…)

7. Não esgotei o tema, mas se for o caso, vou deixar para falar mais em um outro texto. Para encerrar, deixo outra forma alternativa de se fazer filosofia, que não sei se é tão simples de ser aplicada quanto aquela proposta pelo Hume. Esta é do conterrâneo do Simon, Blaise Pascal:

Zombar da filosofia é filosofar de verdade.

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