Lições turísticas, com Trefethen e Arlt

Já falei da coletânea de fichas do matemático Lloyd Trefethen em outro texto neste site. Aqui vai mais uma meditação interessante do Trefethen publicada naquele livro:

Numa exposição breve, a cultura estrangeira pode parecer mais estrangeira do que ela realmente é. Naturalmente, nós nos fixamos nos cheiros estranhos e nos costumes desconhecidos, e, particularmente se a língua e diferente, pode ser difícil ver que, atrás disso tudo, essas pessoas não são lá muito diferentes de nós. Assim, não é garantido que uma semana em Bombaim vá te tornar mais cosmopolita; é possível que te torne mais intolerante. Qual será o caso vai depender muito das teorias na sua cabeça com as quais você vai interpretar a experiência.

Se, em vez disso, você ficar em casa lendo um livro sobre a Índia, você perde o imediatismo do confronto com homens escuros de turbantes, o cheiro de curry, e o indecifrável hindi. Por conta disso, a impressão que você tem pode ser mais realista. Descritos no nosso idioma, os indianos começam a parecer mais ou menos como nós mesmos – o que, numa primeira aproximação, é certamente a conclusão correta.

A lição que eu tiro desta passagem, e não digo que seja a única possível: há certas coisas que só podem ser apreciadas através da experiência de viajar, principalmente no que se refere à visita de lugares. Quer ver a Torre Eiffel, não tem jeito, vai ter que ir a Paris, embora tenham feito uma réplica bem fiel, mas menorzinha, em Las Vegas; quer conhecer o Grand Canyon, infelizmente, só no Arizona mesmo (e esse vai ser bem difícil de copiar). Agora, se seu objetivo for conhecer, conviver, ter novas experiências com pessoas… bom, viajar pode ser inútil, e até mesmo nocivo. Tudo vai depender da sua postura em face das experiências do cotidiano, isso antes mesmo de você arrumar qualquer mala.

Esta passagem me lembrou um alerta dado pelo autor argentino Roberto Arlt, muitas décadas antes da publicação daquela coletânea de fichas. Na crônica “O prazer de vagabundear”, que apareceria na compilação Aguafortes Portenhas, ele defende a caminhada sem destino fixo pelas ruas da sua cidade – Buenos Aires, no caso do Arlt. Ele diz em um trecho da crônica (citando, coincidentemente, a Índia usada pelo Trefethen):

… cheguei à conclusão de que aquele que não encontra todo o universo contido nas ruas da sua cidade, não encontrará uma rua original em nenhuma das cidades do mundo. E não as encontrará, porque o cego em Buenos Aires é cego em Madri ou em Calcutá…

(Todas as traduções são minhas.)

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