Tolstói estilista vs. Tolstói moralista

O russo, eventualmente naturalizado norte-americano, Vladimir Nabokov considerava o seu conterrâneo Liev Tolstói um gênio das letras, no mesmo nível de outros gigantes como Shakespeare, Milton e Púchkin. Mas o Nabokov era bastante seletivo em seus elogios: por exemplo, ele adorava Anna Karenina e A Morte de Ivan Ilitch, mas detestava Ressurreição e A Sonata a Kreutzer (Guerra e Paz tem pontos positivos e negativos, segundo ele). Além disso, o autor de Lolita admirava os talentos do Tolstói apenas como prosador – segundo aquele, “no longo prazo, ninguém levaria realmente a sério o moralismo utilitário” deste. Curiosamente, esta visão do Tolstói moralista por parte do Nabokov encontra um certo eco na obra do filósofo inglês Bertrand Russell; pelo menos essa é a impressão que eu tenho ao ler este trecho da sua História da Filosofia Ocidental, numa referência às Confissões do Santo Agostinho: “Este livro teve vários imitadores, particularmente Tolstói e Rousseau… Santo Agostinho é, em certos aspectos, similar a Tolstói, a quem, entretanto, ele é superior em intelecto.”

Mas voltando ao Nabokov. Não sei se ele tinha alguma passagem específica do Tolstói em mente quando ele fez aquela crítica ao moralismo deste. Eu sei que eu lembrei dessa crítica quando me deparei com este trecho do Calendário de Sabedoria, uma compilação de máximas preparada pelo Tólstoi nos últimos anos de sua vida:

Não existe o passado e não existe o futuro; nunca ninguém adentrou esses dois reinos imaginários. Só existe o presente. Não se preocupe com o futuro, porque não existe o futuro. Viva no presente e para o presente, e se o seu presente for bom, então ele será bom para sempre.

Que tal essa imagem dos “dois reinos imaginários”? Não é sensacional? Se alguém está à procura de evidências do senso estético do homem, aqui está. Quanto ao resto da passagem… Para mim, nada diferente do que poderíamos encontrar num livro genérico de auto-ajuda à venda em qualquer livraria de aeroporto – que, confesso, nunca li, mas desafio qualquer um a demonstrar que falei bobagem. No final das contas, o Vladimir não estava tão errado na sua apreciação, certo?

Me parece que o que incomodava o Nabokov não era o moralismo em si, tanto que ele até era fã da Morte de Ivan Ilitch, um texto com forte conteúdo moral. O problema era quando a mensagem moral vinha “embalada” em prosa deficiente. E eu tendo a concordar com ele: posso até me identificar com o trecho que eu citei, mas ele é memorável como (para ficarmos no mesmo autor) a frase que abre Anna Karenina? Isto nos leva a uma discussão sobre o papel moral, ou social, da literatura, um assunto sobre o qual o Nabokov falou e escreveu eventualmente. Mas isso vai ficar para outra hora.

(Todas as traduções são minhas; a do Calendário de Sabedoria foi a partir da versão em inglês, traduzida pelo Peter Sekirin. As citações do Nabokov vêm da coletânea de entrevistas e artigos Strong Opinions.)

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