A Escandinávia funciona mesmo?

No nosso país, é bastante comum certa visão de que as coisas no dito Primeiro Mundo “funcionam”: não existe pobreza, as leis são cumpridas por todos, as ruas das cidades são limpas e organizadas, e por aí vai. Ainda que muito disto seja verdade, certamente há muita coisa nestes países que foge da imagem paradisíaca que formamos deles.

Um livro publicado há alguns anos (The Almost Nearly Perfect People, do jornalista inglês Michael Booth) nos permite apreciar melhor a situação verdadeira nos países nórdicos, que costumam liderar os rankings mundiais de qualidade de vida, desigualdade social, felicidade da população etc. Com o livro, o Booth, que é casado com uma dinamarquesa e mora na Dinamarca, busca desvendar o segredo para que os escandinavos tenham conseguido construir sociedades tão bem-sucedidas – e no processo, acaba descobrindo que nem tudo são flores por lá.

Muitos dos achados do Booth são fascinantes, e surpreendentes para os que olham para países como Suécia e Dinamarca como lugares… bom, quase aproximadamente perfeitos, como diz o título do livro. Vou mostrar só alguns deles na lista abaixo. Você sabia…

  • que bestialismo não é crime na Dinamarca, e que aproximadamente 7 por cento dos dinamarqueses adotam a prática? (Como diz o Booth: “da próxima vez que você assistir a um jogo da seleção dinamarquesa de futebol, pense no seguinte: existe uma boa chance de que pelo menos um dos jogadores tenha transado com um quadrúpede.”)
  • que, apesar de todo o marketing, a Dinamarca tem a maior pegada ecológica per capita do mundo (dados de 2012), perdendo apenas para três países do Golfo Pérsico e à frente dos EUA? que é a maior exportadora de petróleo da União Europeia? que a maior parte de sua energia vem de usinas de carvão? que a sua maior empresa (Maersk) é a maior empresa de transportes marítimos do mundo (que poluem duas vezes mais do que os transportes aéreos)?
  • que a Statoil, a empresa estatal norueguesa que controla a extração de petróleo no país, foi denunciada pelo Greenpeace por práticas altamente danosas ao meio ambiente, e pela revista Business Week por pagamentos ilícitos a autoridades iranianas?
  • que a Suécia até 2010 foi governada pelos social-democratas, que comandaram o país de forma praticamente ininterrupta por boa parte do século XX? criando assim o que o Booth chamou de ‘totalitarismo benigno’, ou um governo que exerce um forte controle sobre diversos aspectos da sociedade sueca – resultando, inclusive, num programa de esterilização forçada, vitimando em torno de sessenta mil mulheres entre 1935 e 1976?

Tudo isto quer dizer que, respondendo à pergunta do título deste texto, a Escandinávia não funciona? Eu não diria isso, muito pelo contrário. Claro, por causa dos fatos que eu citei, e de muitos outros (nem falei do frio, do qual os brasileiros, em particular, tendem a não gostar), a Dinamarca, a Suécia e os seus vizinhos não são exatamente utopias. Mas continuam insubstituíveis como modelo de sociedade não só para brasileiros, mas também para ingleses, americanos, alemães, franceses… Prefiro deixar que o Booth explique (a tradução é minha):

Como disse Paul McCartney quando um jornalista sugeriu que o Álbum Branco poderia ter sido melhor como um disco simples em vez de duplo: ‘É, sim, mas sabe, ainda é o Álbum Branco.‘ Claro que há desvantagens em sociedades quase aproximadamente perfeitas: há esqueletos históricos em todo armário, e sim, países com tendências homogêneas e monoculturais tendem, sim, a ser um pouco seguros e enfadonhos demais, e isolados também. Olhando para o futuro, os países nórdicos se deparam com alguns desafios sérios – populações envelhecendo, estados de bem-estar rangendo, a integração das populações de imigrantes progredindo, e a desigualdade aumentando. Mas ainda é a Escandinávia. Ainda é o lugar de causar inveja, rico, pacífico, harmonioso e progressivo que sempre foi. Ainda é o Álbum Branco.

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