Limites na ‘cultura do cancelamento’

Recentemente, tem havido muitas discussões sobre ‘cancelar’ certos artistas, devido a coisas que eles fizeram num passado às vezes não tão distante. Eu vejo duas situações diferentes. Temos o lado policial da coisa, e a justiça já está se encarregando de pessoas como o Harvey Weinstein e o Bill Cosby e dos fatos gravíssimos em que elas estão envolvidas, apesar de todos os seus talentos e de toda a sua influência. Ponto. Mas há outro aspecto, no qual todos nós temos mais controle: é aceitável continuar consumindo a arte produzida por estas pessoas, com tudo o que sabemos delas? Podemos continuar vendo Woody Allen e Roman Polanski, ouvindo Michael Jackson (que nem vivo mais está), assistir aos especiais do Louis CK, entre tantos outros, como fazíamos antes?

De novo, muito já se discutiu sobre esta pergunta em particular, e é muito fácil encontrar no Google argumentos favorecendo qualquer um dos lados da questão. O meu ponto é o seguinte: dependendo de qual lado escolhermos nesta disputa, será que estamos dispostos de abraçá-lo até o fim? Seria algo assim: OK, Michael Jackson é um monstro, então não ouço mais “Thriller”, nem “Billie Jean”, nem “Bad”, nem todo o resto do catálogo dele. Vou deixar de ouvir “Let It Be”? E “Imagine”? E “My Sweet Lord”? Não estou nem falando dos músicos – ainda que, segundo alguns, parte da letra de “Getting Better” seja baseada em fatos reais da vida de um deles… – mas do produtor. (E se você não gosta dos Beatles, é só olhar a discografia do homem, duvido que você não encontre algo do seu agrado lá.)

Para encerrar: não, eu não tenho resposta para esta última pergunta, não consigo me decidir sobre o que fazer quanto à obra de artistas execráveis. Quem expressou bem essa minha ambiguidade foi o Stevie Van Zandt, guitarrista da banda do Bruce Springsteen, que escreveu isto no Twitter quando da morte do Phil Spector, já que falamos dele (a tradução é minha):

RIP Phil Spector. Um gênio irredimível e conflituoso, ele era o exemplo definitivo da Arte sempre sendo melhor do que o Artista, tendo feito alguns dos maiores discos na história baseados na salvação do amor enquanto permaneceu incapaz de dar ou receber amor sua vida inteira.

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