O fascínio dos aforismos

No livro The Long and Short of It, o professor e especialista em literatura russa Gary Saul Morson se dedica a analisar uma forma literária pouco explorada em estudos acadêmicos: o aforismo, ou aquele fragmento de sabedoria transportado numa sentença bem curta. É uma leitura bastante agradável e instrutiva mesmo para leigos (meu caso); neste texto, eu queria chamar atenção para o motivo dado pelo Morson para o fascínio que ele sente pelos aforismos – os quais, ao longo do livro, ele categoriza em diversos gêneros (apotegmas, enigmas, ditados, convocações etc.):

Há muito tempo estes gêneros curtos vêm me fascinando. Eles parecem se posicionar exatamente onde fica o meu coração, em algum lugar entre a literatura e a filosofia. Pode parecer estranho que alguém tenha escrito um livro sobre Guerra e Paz e ainda assim seja fascinado pelos gêneros literários mais curtos, frequentemente não mais longos do que uma linha. Mas tanto os grandes romances filosóficos quanto os aforismos funcionam simultaneamente como literatura e como filosofia, e tanto aqueles quanto estes exigem análise literária e filosófica para serem compreendidos adequadamente… Certamente, alguns gêneros aforísticos parecem ser mais literários e outros mais filosóficos, mas, tomados em conjunto, os gêneros curtos podem ser vistos num contínuo implícito entre literatura e filosofia. “O aforismo, o apotegma, nos quais eu sou o primeiro mestre entre os alemães, são as formas da eternidade,” proclamou Nietzsche em Crepúsculo dos Ídolos. “A minha ambição é dizer em dez frases o que todos os outros dizem em um livro – o que todos os outros não dizem em um livro.”

Esse olhar do aforismo como um gênero que toca em duas disciplinas, a literatura e a filosofia, era novo para mim; assim que eu o descobri, achei mais uma razão para apreciar esses gêneros curtos – qualquer manifestação multidisciplinar vai ter sempre o meu interesse. Assim como o professor, eu sou fã de longa data de aforismos, e os uso frequentemente tanto em textos quando em conversas – talvez até mais do que deveria… Aliás, só a ajuda que estes gêneros curtos dão no enriquecimento de qualquer expressão, seja oral ou escrita, já bastaria para justificar meu fascínio por eles.

Mas gosto dos provérbios por outros motivos também. Um deles é que, por definição, eles têm de ser curtos! Sabedoria contida em porções minúsculas, leitura rápida e (para aqueles com esta aptidão) escrita rápida, o que pode ser melhor que isso? E sim, meu “eu” preguiçoso pode ter falado mais alto agora, mas, como já mostrei em outro texto, estou em boa companhia. Outra razão é que, ao contrário de gêneros mais longos, a criação de um aforismo está ao alcance de qualquer um. Romances têm de ser escritos por romancistas, e isto vale também para quem vem de outra carreira – o Chico Buarque precisou deixar de ser músico e sentar na cadeira e escrever (no papel, no computador, vai saber) palavra após palavra, frase após frase, página após página… até saírem Estorvo, Benjamim, Budapeste e todos os outros livros. Já o aforismo pode ser escrito, ou pode ser dito de improviso numa conversa, ou até mesmo surgir sem que seu autor perceba o que está criando. Entre os autores de aforismos que aparecem no livro do Morson, temos não só “homens de letras” (Dostoiévski, La Rochefoucauld, Wittgenstein), mas também líderes (Churchill, Garibaldi, Lenin), cientistas (Darwin) e até um jogador de beisebol (Yogi Berra).

O que quer dizer que todos nós somos aforistas em potencial. Na verdade, segundo o meu dicionário, aforista é aquele que “faz ou usa” aforismos; então, por ora, vou me contentar em ser aforista só segundo este segundo verbo.

(A tradução é minha.)

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