Anitta e uma lição de música popular

Infelizmente nunca encontrei a citação original, mas uma apreciação do disco Kind of Blue do Miles Davis, escrita pelo José Augusto Lemos e publicada na seção “Discoteca Básica” da revista Bizz em novembro de 1986, usa um argumento proposto pelo músico e produtor Brian Eno:

O “tipo de blues” obtido [no disco] segue a linha do argumento favorito de Brian Eno quando quer defender a música popular de sua “inferioridade” diante da erudita: a inovação existe sim, mas os bitolados a procuram no lugar errado – a harmonia – quando ela está na textura.

Há uma palavra nessa frase do Eno que sempre me intrigou: textura. No contexto da música popular, o que quer dizer textura? Graças a esta entrevista do David Bowie – com quem, coincidentemente, o Eno colaborou em três grandes discos – na qual ele defende os talentos do guitarrista dos Pixies (“o [Joey] Santiago fornecia cores, tinha a ver com textura”), pude entender melhor o conceito.

Em outras palavras: textura são “cores”, “sabores”, o tom, o timbre, como as coisas soam. Acho que estamos de acordo que um “dó” num violão e numa guitarra elétrica, com toda a variedade de amplificadores, pedais, efeitos etc. podem soar de muitas formas bem diferentes, certo? (E nem estou falando da música de hoje, com toda esta tecnologia digital: Jimi Hendrix fazia toda aquela barulheira numa época em que mandavam gente para a Lua com réguas de cálculo.)

Mas voltando ao meu tema principal. Recentemente, tive uma aula prática desse conceito de textura, ouvindo Anitta. Isso mesmo, Anitta. Mais precisamente, o Clube da Anittinha, a série de vídeos que ela fez para o público infantil; a minha filha adora, caso contrário eu nunca chegaria até eles (o programa é bom para a faixa etária, diga-se de passagem). Não estou me justificando, até porque nem acho Anitta (ou qualquer outro artista) categoricamente “ruim”; simplesmente não sou o público dela, e que cada um ouça o que quiser e seja feliz. Já passei da idade de me comportar como um ideólogo com música…

OK, me desviei de novo. Sim, texturas. Convido qualquer um a ouvir esta música da Anitta e, se a memória não tiver disparado automaticamente (isso depende da faixa etária do ouvinte…), a ouvir esta aqui na sequência. Sim, estou enviesando o experimento, mas eu sei de pelo menos mais uma pessoa que concorda comigo – num almoço de família, uma parente começou a ouvir a Anitta e disse, na lata, “ei, isso aí é Michael Jackson!”

A pergunta mais interessante, pelo menos para mim, é: por que ela e eu (e, espero, outras pessoas também) achamos essa semelhança entre os dois artistas? Suspeito que não seja a melodia, até porque a semelhança é evidente já nos primeiros segundos das duas músicas. Meu palpite: o ritmo da bateria e da guitarra contribuem muito, mas para a Anitta criar essa familiaridade, são indispensáveis o som da própria bateria e do sintetizador – qualquer pegada mais pesada nas baquetas, por exemplo, e o Michael Jackson passaria longe.

O interessante dessa ideia de textura é que muito do que gostamos numa música qualquer de rock, MPB ou qualquer outro gênero popular (até mesmo Anitta, por que não?) acontece não enquanto os músicos tocam ou cantam, mas antes disso – na escolha do estúdio de gravação, dos instrumentos, da posição dos microfones, dos efeitos (digitais ou não)… Ou seja, uma boa porcentagem da música já está pronta antes mesmo de qualquer nota sequer ser tocada. Fazendo uma analogia com o cinema, outra arte do século passado em que cortes, edições, sobreposições etc. são aspectos essenciais para se chegar ao produto final, me vêm à cabeça a meditação que o americano EL Doctorow fez em City of God, um de seus últimos romances (a tradução é minha):

Depois que o set de filmagens é iluminado, a câmera é posicionada, os atores assumem os seus lugares, devidamente vestidos, com seus cabelos arrumados para indicar classe econômica, educação, idade, status social, virtude ou falta dela, noventa e cinco por cento do significado de uma cena está estabelecido antes mesmo de alguém dizer uma palavra.

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