A tradução como aprendizado na criação literária

Muitas bandas de rock costumam passar um longo tempo tocando apenas covers de outras bandas, antes de começarem a compor suas próprias músicas – os Beatles e os Rolling Stones são apenas os exemplos mais notórios. Autores de literatura passam por um processo parecido? Temos o caso do Hunter S. Thompson, que copiou integralmente, e mais de uma vez!, O Grande Gatsby, só para saber qual era a sensação de escrever uma obra-prima. Será que existem outros métodos, digamos, mais produtivos para quem está começando, e menos excêntricos?

Eu diria que sim. Na verdade, quem diz não sou eu. O autor austríaco Stefan Zweig dá a seguinte dica no seu livro de memórias O Mundo de Ontem (escrito quando o Zweig já havia se mudado para Petrópolis, onde ele acabaria se suicidando em 1942):

… se eu fosse dar um conselho hoje a um jovem escritor que ainda estivesse incerto de seu caminho, tentaria induzi-lo a, no começo, se ofertar a uma obra maior como intérprete ou tradutor. Para um iniciante, há em toda oferta de auto-sacrifício mais segurança do que em sua própria criação, e nada que seja feito com toda a devoção é feito à toa.

Conselho parecido foi dado pelo argentino Julio Cortázar, segundo ele mesmo “um tradutor metido a escritor”:

Eu aconselharia a qualquer escritor jovem que tivesse dificuldades de escrever, se eu fosse amigo de dar conselhos, que deixasse de escrever por um tempo e que fizesse traduções; que traduzisse boa literatura, e um dia ele perceberá que poderá escrever com uma soltura que não tinha antes.

Finalmente, temos os conselhos que o poeta americano Ezra Pound deu a outro poeta americano, WS Merwin:

Ele disse, se você quer ser um poeta, você tem que levar isso a sério. Você tem que trabalhar com isso como você trabalharia com qualquer outra coisa e você tem que fazer isso todo dia. Ele disse, você deveria escrever mais ou menos 75 versos todo dia. Você sabe, Pound era ótimo para ditar regras sobre como fazer qualquer coisa. E ele disse, você na verdade não tem como escrever 75 versos por dia. Você não tem nada sobre o que escrever. Ele disse, com 18 anos, você acha que tem, mas não tem. E ele disse, o jeito é aprender um idioma e traduzir. Ele disse, desse jeito, você pode praticar e você pode descobrir o que você pode fazer com o seu idioma. Você pode aprender um idioma estrangeiro mas a tradução é seu jeito de aprender o seu próprio idioma.

Ou seja: para quem quer escrever, o equivalente a tocar covers é traduzir. Claro, isto exige conhecer outro(s) idioma(s) – do mesmo modo que tocar covers exige saber tocar guitarra, baixo, bateria…

(Todas as traduções são minhas.)

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