As listas de Roth e Nabokov

O livro A Vertigem das Listas, do italiano Umberto Eco, pode ser várias coisas (ensaio, livro de mesa de centro, meditação), mas para o presente texto ele é simplesmente uma lista de listas, ou um catálogo comentado e ilustrado de listas que apareceram na literatura ocidental ao longo dos séculos: em Homero, em Rabelais, em Joyce, em Borges etc. Duas listas que não apareceram nesse livro foram criadas por dois dos meus autores favoritos, Philip Roth e Vladimir Nabokov – o judeu e o errante, como eu chamo a dupla. A do Roth aparece no romance O Teatro de Sabbath, numa discussão sobre a demissão do personagem-título de seu emprego como professor de teatro numa faculdade, por conta de conversas telefônicas impróprias que ele teve com uma aluna:

… nem mesmo Sabbath entendia como ele podia perder seu emprego numa faculdade de artes liberais por ensinar uma jovem de vinte anos a falar sacanagem vinte e cinco anos depois de Pauline Réage, cinquenta e cinco anos depois de Henry Miller, sessenta anos de D. H. Lawrence, oitenta anos depois de James Joyce, duzentos anos depois de John Cleland, trezentos anos depois de John Wilmot, segundo conde de Rochester – sem falar de quatrocentos anos depois de Rabelais, dois mil anos depois de Ovídio, e dois mil e duzentos anos depois de Aristófanes.

A do russo aparece – surpresa? – no livro que lhe deu fama mundial. Humbert Humbert, o narrador de Lolita (e de quem a personagem-título será eventual alvo), elenca exemplos, ficcionais ou não, de homens tendo relações sexuais com pré-adolescentes:

Hugh Broughton, um escritor de controvérsia no reino de James Primeiro, provou que Raabe foi uma prostituta com dez anos de idade… Aqui está Virgílio que podia cantar a ninfeta em tom simples, mas provavelmente preferia o períneo de um rapaz. Aqui estão duas das pré-núbeis filhas do Nilo do rei Aquenáton e da rainha Nefertiti (esse casal real teve uma ninhada de seis), vestindo nada exceto muitos colares de contas brilhantes, relaxadas em almofadas, intactas depois de três mil anos, com seus corpinhos macios, marrons, cabelos cortados e longos olhos de ébano. Aqui estão algumas noivas de dez anos forçadas a se sentar sobre o carpano, o marfim viril nos templos da cultura clássica. Casamento e co-habitação antes da idade da puberdade ainda são não-incomuns em certas províncias das Índias Ocidentais. Velhos Lepcha de oitenta anos copulam com meninas de oito, e ninguém se importa. Afinal de contas, Dante se apaixonou loucamente por sua Beatriz quando ela tinha nove anos, uma cintilante garotinha, pintada e adorável, e enfeitada com joias, num vestido carmesim, e isto foi em 1274, em Florença, num banquete privado no alegre mês de maio. E quando Petrarca se apaixonou loucamente por sua Laura, ela era uma ninfeta loira de doze anos correndo no vento, no pólen e no pó, uma flor em fuga, no belo plano como divisado das colinas da Vaucluse.

Não me lembro se o Eco discutia no livro dele a relação entre a forma de elencar os elementos de uma lista e o estilo do autor da lista (minha leitura foi um tanto superficial, admito). Mas nada nos impede de fazer esta relação com as listas do Roth e do Nabokov; mais do que isso, para mim elas são um bom indicativo de por que atualmente eu prefiro o nativo de Newark ao nativo de São Petersburgo (até pouco tempo atrás era o contrário). Ambos demonstram grande erudição, mas a lista do Roth é bem mais concisa, e também me parece menos pedante. Principalmente pela escolha das palavras (traduzir o trecho de Lolita me deu bem mais trabalho do que o de O Teatro de Sabbath, e deve conter mais erros também), a voz que eu ouço ao ler a passagem que eu citei é a mesma que o português António Lobo Antunes ouve quando lê qualquer coisa do russo: “repara como sou inteligente, repara como sou inteligente…”

Por conta disso, e de outras razões também, o Roth usa uma linguagem mais próxima do leitor do que o Nabokov – não digo que seja um autor mais simples ou mais fácil – e deste modo, é um autor mais próximo do leitor, ou um autor com quem o leitor consegue se identificar mais facilmente. Pelo menos esta é a minha experiência. Claro, não quer dizer que o russo não seja um autor brilhante, com seus próprios méritos, que eu espero abordar em algum momento no futuro. Como eu já venho fazendo, e certamente vou continuar fazendo, com a obra do americano.

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