Uma defesa dos bateristas

Ao pesquisar algumas referências para o texto anterior, achei uma matéria sobre bateristas com uma piada bastante divertida: um baterista, cansado de ser ridicularizado por outros músicos, decide aprender um instrumento de verdade. Ele vai a uma loja e diz ao vendedor: “vou levar aquele trompete vermelho e aquele acordeão.” O vendedor olha para ele de um jeito esquisito e responde: “OK, pode levar o extintor de incêndio, mas a calefação fica.”

O objetivo dessa matéria é dar um pouco de nuance à ideia ilustrada pela piada (bateristas são ogros com quase nenhum senso de música), indicando que eles são indispensáveis, e que muitos grupos perderam muito em qualidade quando os homens das baquetas saíram. O que eu proponho neste texto é combinar a defesa da matéria e o princípio por trás da piada numa abordagem diferente: me parece que estamos pensando em bateristas de uma forma equivocada.

A melhor analogia que consigo pensar para este caso é, como já fiz antes, o futebol. Num time, o que esperamos de um goleiro? Que ele chute bem a gol? Que ele tenha passes precisos? Que ele saiba cabecear, seja rápido na corrida, tenha bom drible? Não! De um goleiro se espera isto, e apenas isto: que ele impeça bolas de entrarem no gol, o que, é claro, exige um certo conjunto de habilidades específicas (reflexos rápidos, impulsão, senso de posicionamento etc.). Sim, houve goleiros excelentes no chute a gol, que eram os cobradores principais de falta e pênalti dos seus times (Chilavert e Rogério Ceni são os melhores exemplos), mas estas são raras exceções.

Da mesma forma, o que esperamos de um baterista numa banda? Para não entrar em muitos detalhes técnicos, ele deve fazer o que se espera dele, o que quer que isso seja. Ele não precisa saber cantar, nem saber tocar outros instrumentos, nem compor; claro, há grandes bateristas que sabem tudo isso – Phil Collins e Dave Grohl são os exemplos mais notórios – mas eles são o Chilavert e o Rogério Ceni do universo do rock.

E eu percebo algo curioso: em geral, o que um baterista faz não pode ser feito pelos outros músicos da banda, validando de novo nossa analogia com o futebol – quão genial seria o Messi no gol? Não consigo achar a referência, mas eu me lembro de ter lido uma entrevista com uma das ex-baixistas do Smashing Pumpkins, banda liderada pelo Billy Corgan (por algum motivo, o Corgan só tem mulheres no baixo), em que ela dizia que o Corgan estava pensando em gravar um disco novo naquele momento, mas que ela não participaria dele. Ela sabia que o Corgan, sendo o compositor, multi-instrumentista e produtor que é, e com o talento e perfeccionismo que tem, não precisaria de mais ninguém para gravar um disco – exceto de um baterista. E não um baterista qualquer, mas do Jimmy Chamberlin, músico brilhante que tocou nos três primeiros discos da banda.

E para encerrar: piadas à parte, os músicos numa banda reconhecem a importância de um baterista; a própria matéria que eu citei no primeiro parágrafo tem depoimentos de músicos que demonstram isso. Uma banda com John Lennon, Paul McCartney e George Harrison precisa implorar para que seu baterista volte quando ele se demite, e enfeitar sua bateria com flores quando ele decide voltar? Segundo esses três grandes músicos, a resposta é sim para as duas perguntas.

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