Para que servem os bateristas?

Neste vídeo, o baterista Stewart Copeland mostra que o backbeat de uma música rock (se a batida é, digamos, “tum-tá, tum-tum-tá…”, o backbeat é o “tá”) não é indispensável para o ritmo da música, e pode ser substituído de formas bastante criativas – como ele mesmo fazia no antigo grupo dele, o Police. Mesmo sem nenhum backbeat, segundo o Copeland, ainda sobra um montão de ritmo na música, você continua recebendo o seu salário, e te libera para tentar várias outras coisas na bateria.

Eu acho interessante o Copeland, um gênio da bateria (meu preferido junto com o John Bonham*), ser tão veemente quanto ao papel do baterista como provedor de ritmo numa música. Talvez esse papel seja de fato fundamental numa banda de rock, caso contrário veríamos bandas sem bateristas, não? Afinal de contas, há bandas sem cantores/vocalistas (Booker T. & the M.G.s), sem guitarristas (Morphine), sem baixistas (White Stripes, Doors ao vivo), mas sem bateristas?

Em outra situação, eu acho que até concordaria com o ex-Police. Mas, ao ler o romance Na Praia, do inglês Ian McEwan, justamente acabei me deparando com uma passagem que mudou totalmente minha visão sobre o que faz um baterista numa banda (talvez “visão” não seja o melhor termo, mas enfim). A passagem reproduz uma conversa entre Edward, um estudante de história, e Florence, uma violinista num quarteto de cordas (a tradução é minha):

Quando ele propôs que ela não “entendia” de verdade rock and roll e que não havia motivos para ela continuar tentando, ela admitiu que o que ela não aguentava era a bateria. Quando as músicas eram tão elementares, em geral em tempos de quatro por quatro, por que essa pancadaria e esse estampido e esse barulho implacáveis para manter o tempo? Qual era o objetivo, quando já havia uma guitarra-base, e muitas vezes um piano? Se os músicos precisavam ouvir as batidas, por que não um metrônomo? E se o Ennismore Quartet [o quarteto de cordas do qual ela fazia parte] chamasse um baterista? Ele a beijou e lhe disse que ela era a pessoa mais quadrada de toda a civilização ocidental.

– Mas você me ama – ela disse.

Por isso eu te amo.

Eu concordo com a Florence do trecho acima: músicos de rock bem que poderiam usar um metrônomo, se a questão fosse apenas ouvir as batidas; e por mais que o Copeland diga o contrário, uma banda não precisa que o baterista mantenha o ritmo para ela – se dá para tirar o backbeat, por que não tirar tudo? Você só vai deixar de receber o seu salário, a música não vai sofrer… Em termos bem gerais, e para não me alongar muito nesta discussão, me parece que a bateria é simplesmente parte da linguagem do rock. Tiremos a “pancadaria”, o “estampido”, o “barulho”, nas palavras da Florence, e ficamos com outro gênero de música – em quatro por quatro, sim, mas não rock.

*-sim, Neil Peart é um deus das baquetas, não nego isso. É gosto pessoal, nada mais.

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