Sobre o esquecimento em Israel

Eu não sou judeu, mas tenho interesse em diversos aspectos da cultura e da tradição judaicas. Eu percebi que, dos 15 textos publicados nesta página, 6 mencionam autores judeus ou temas ligados à história judia. Nisso, eu sei que estou em boa companhia: Borges teve grandes amigos judeus durante sua adolescência na Suíça, e pelo menos um biógrafo suspeita que essa convivência é a responsável pela constante presença de temas judeus na obra posterior do argentino – não é à toa que um dos contos mais famosos dele se chama justamente O Aleph.

Eu digo tudo isso para explicar que sempre sou atraído por histórias como as que envolvem o regente e pianista Daniel Barenboim. Sobre suas habilidades musicais não tenho muito o que dizer, já que sou praticamente leigo em música erudita; falei dele nesta página, mas só para fazer uma analogia com os talentos do Ronaldinho Gaúcho como jogador de futebol. Mas há aspectos da biografia dele que vão além dos seus talentos: suas múltiplas cidadanias (argentina, israelense, palestina e espanhola); seu casamento com a Jacqueline du Pré; sua decisão de tocar Wagner em Israel, informalmente banido no país por ter sido o compositor favorito dos nazistas. Ao falar sobre esta decisão, o músico se lembrou de uma entrevista coletiva que foi interrompida pela chamada de um celular que tocava justamente ao som das Valkírias; se um celular pode tocar Wagner em Israel, pensou o Barenboim, por que não uma orquestra?

Esta anedota me trouxe à memória outras evidências de que alguns dos capítulos mais trágicos da história recente do povo judeu vêm sendo vividos exatamente dessa forma, como história – pelo menos em Israel. No romance Operação Shylock: uma Confissão do americano Philip Roth, por exemplo, há uma cena em que adolescentes de uma escola de Jerusalém vão assistir ao julgamento do guarda de um campo de concentração:

[os estudantes] estavam passando recados entre si, como meninos de qualquer lugar do mundo quando são levados a excursões por seus professores e ficam para lá de entediados. Eu vi duas meninas por volta de catorze anos dando risadinhas por causa de um recado que elas tinham recebido de um menino numa fila atrás delas. A professora, uma moça magra e intensa que usava óculos, mandou elas pararem com isso, mas eu olhava para as duas e pensava, “não, não, está certo” – para elas Treblinka deveria ser um lugar nenhum lá na Via Láctea; neste país, tão fortemente povoado nos seus primeiros anos por sobreviventes e suas famílias, é na verdade motivo de alegria, pensei eu, que até o final da tarde essas adolescentes não vão nem se lembrar o nome do acusado.

Outro caso foi não a notícia em si, mas como ela foi relatada pelo jornalista. Em 2018, a Seleção Israelense de Futebol contratou o austríaco Andreas “Andi” Herzog para ser seu técnico. Um site esportivo alemão contou como foi a entrevista coletiva de apresentação do novo técnico:

Do seu amigo e mentor Jürgen Klinsmann, com quem “Herzerl” [Herzog] foi co-treinador da Seleção dos EUA entre 2011 e 2016, ele aprendeu: para ser bem-sucedido, ou você se chama Franz Beckenbauer – ou você trabalha duro, de preferência 24 horas por dia. “Eu joguei por 10 anos na Alemanha, e há um motivo pelo qual os alemães têm tanto sucesso.” Um exemplo ousado, sobretudo em Israel. Mas a maioria dos jornalistas presentes concordou com a cabeça. [Os negritos são meus.]

De novo: não sou judeu. Também não sou israelense. Não faço ideia de como se dão esses processos de memória e esquecimento em Israel ou em qualquer outro país, além destes escassos exemplos que eu citei – um deles, inclusive, fictício, ainda que seu autor seja evasivo a respeito. Mas enfim, é um tema que me atrai, e se me dá a chance de falar de música, futebol e Philip Roth, melhor ainda.

(Todas as traduções são minhas.)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s