Tolentino provoca, Larkin soluciona (25 anos depois)

Em 1996, o poeta Bruno Tolentino deu uma entrevista à revista Veja que, quase um quarto de século depois, ainda me deixa intrigado. Por uma série de declarações dele, mas principalmente por esta aqui:

Não posso educar filho em escola daqui. […] Foi minha mulher* quem disse não. Educar um filho ao lado de Olavo Bilac, última flor do Lácio inculta e bela, que aconteceu e sobreviveu, ao lado de um violeiro qualquer que ela nem sabe quem é, este Velosô, causou-lhe espanto. A escola que ela procurou para fazer a matrícula tem uma Cartilha Comentada com nomes como Camões, Fernando Pessoa, Drummond, Manuel Bandeira e Caetano. O menino seria levado a acreditar que é tudo a mesma coisa. […] Minha mulher já havia se conformado com os seqüestros e balas perdidas do Rio, mas ficou indignada e espantada pelo fato de se seqüestrar o miolo de uma criança na sala de aula. Se fosse estudar no Liceu Condorcet, em Paris, jamais seria confundido sobre os valores do poeta Paul Valéry e do roqueiro Johnny Hallyday, por exemplo. […] É preciso botar os pingos nos is. Cada macaco no seu galho, e o galho de Caetano é o show biz. Por mais poético que seja, é entretenimento. E entretenimento não é cultura. […] Se fizerem um show com todas as músicas de Noel Rosa, Tom Jobim ou Ary Barroso, eu vou e assisto dez vezes. Mas saio de lá sem achar que passei a tarde numa biblioteca. Não se trata de cultura e muito menos de alta cultura. Gosto da música popular brasileira e também da de outros países, mas a música popular não se confunde com a erudita. Então, como é que letra de música vai se confundir com poesia?

O que incomodava o Tolentino era que, na sua visão, as escolas e as universidades brasileiras não viam distinção de valor entre a obra do Caetano Veloso e a de poetas como Drummond, Bilac e Bandeira. O que inaceitável para o poeta, já que o que o Caetano faz (música popular) estaria num nível abaixo do que os poetas fazem (alta cultura).

Imagino que eu não seja o único a perceber uma certa agressividade do Tolentino (falecido em 2007) direcionada ao Caetano e a esse endeusamento dos seus talentos como poeta e homem de letras, mas não é por isso que as declarações dele me intrigam – se ele gostava ou não de determinada obra literária, como quer que seja definida literatura, obviamente era direito dele. A pergunta mais interessante para mim era outra: o que numa letra do Caetano faz dela inferior a um poema do Drummond? Em outras palavras: por que o texto poético tem um valor intrinsicamente superior ao texto de uma letra de música?

Eu me lembro de ter levado minhas inquietações ao meu professor de Português do então 2o. ano do Ensino Médio, logo depois de ter lido essa entrevista; o fato de eu não lembrar do que o professor me disse me faz acreditar que a resposta não foi muito esclarecedora. Não voltei a pensar no assunto nem mesmo em 2016, quando o Bob Dylan ganhou o prêmio Nobel de Literatura – ou, como o Tolentino poderia ter colocado, quando a Academia Sueca fez o papel das escolas brasileiras e colocou o Dylan no mesmo nível de poetas como W.B. Yeats, T.S. Eliot e Pablo Neruda. Até que, recentemente, ao reler a entrevista que o poeta inglês Philip Larkin deu à revista Paris Review (e publicada em uma coletânea), eu encontrei, se não uma resposta completa ao enigma proposto pelo Tolentino, pelo menos um primeiro passo. O Larkin está falando de leituras públicas de poemas (a tradução é minha):

Ouvir um poema, em vez de lê-lo no papel, quer dizer que você perde tanta coisa – a forma, a pontuação, os itálicos, mesmo saber quanto falta para acabar. Ler no papel significa que você pode ir no seu próprio ritmo, absorvendo tudo do jeito certo; ouvir significa que você é arrastado ao ritmo do locutor, perdendo coisas, sem absorver tudo, confundindo palavras, e coisas assim. E o locutor pode interpor a personalidade dele entre você e o poema, para o bem e para o mal. Assim como a plateia também pode se interpor. Eu não gosto de ouvir coisas em público, nem mesmo música. Na verdade, eu acho que leituras de poemas surgiram a partir de uma falsa analogia com a música: o texto é a “partitura” que não “vem à luz” até que é “interpretada.” É falsa porque as pessoas podem ler as palavras, mas não podem ler as partituras. Quando você escreve um poema, você põe nele tudo o que é necessário: o leitor deveria ser capaz de “ouvi-lo” como se você estivesse na sala recitando-o para ele. E é claro, essa moda de leituras de poemas levou a um tipo de poesia que você consegue entender de primeira: ritmos fáceis, emoções fáceis, sintaxe fácil. Eu não acho que se sustenta no papel. [Os negritos são meus.]

Ou seja: segundo o Larkin, um poema composto para ser ouvido tende a ser mais simples no que se refere a “ritmos, emoções, sintaxe” etc., o que faz sentido, já que a sua compreensão pela plateia deve ser imediata – ao contrário do poema composto para ser lido, no qual “você pode ir no seu próprio ritmo, absorvendo tudo no jeito certo”. Como uma letra de música pode ser vista como um poema a ser ouvido em público, aqui temos uma possível explicação da diferença de valor entre as duas formas textuais. Claro, resta verificar se essa diferença existe de fato, o que seria uma tarefa monumental; mas, como eu disse lá em cima, pelo menos temos um primeiro passo.

*-Tolentino era casado com Martine, uma francesa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s