Sherlock Holmes e os terraplanistas

Neste texto, eu falo do terraplanismo simplesmente porque é uma teoria bastante comentada nos últimos tempos, tanto no Brasil quanto internacionalmente; o que eu vou discutir aqui vale para qualquer outra teoria pseudocientífica, como alquimia, criacionismo ou astrologia. Antes de prosseguir, eu gostaria de ressaltar que não faço qualquer juízo de valor sobre qualquer uma destas teorias. Existem certos critérios adotados por cientistas e filósofos para decidir o que é ciência e o que não é; um deles é o da falseabilidade, segundo o qual, em linhas bem gerais, uma teoria científica é válida se a sua validade pode ser refutada por novas evidências. Pensando, por exemplo, na astrologia: que fatos poderíamos fornecer para refutar as suas declarações?

Voltando ao tema do meu texto. Muitos de nós temos a tendência de olhar com menosprezo para aqueles que defendem teorias como o terraplanismo, talvez até com raiva – ainda mais porque esses defensores costumam se alinhar a certas correntes políticas… Mas não é esse o ponto. Crenças sem fundamento todos nós podemos ter, e quem disse que as nossas próprias afinidades políticas não se encaixam nessa categoria? Para mim, o aspecto mais interessante no que se refere a essas crenças em teorias pseudocientíficas é: quão nocivas elas são para seus crentes?

Curiosamente, descobri que o Sherlock Holmes nos dá uma dica para responder esta pergunta. Em Um Estudo em Vermelho, a primeira aparição do detetive no papel, o dr. Watson se surpreende que o Sherlock nunca ouviu falar das teorias do Copérnico sobre o Sistema Solar:

– Você parece surpreso – ele [Holmes] disse, rindo da minha expressão de surpresa. – Agora que eu conheço a teoria vou fazer o possível para esquecê-la.

– Esquecê-la!

– Veja – ele explicou – eu entendo que o cérebro de um homem originalmente é como um sótão vazio, que você tem que encher com a mobília que você escolher. Um tonto coloca lá dentro todo tipo de tralha que ele encontra pelo caminho, e aí o conhecimento que poderia ser útil para ele acaba ficando de fora, ou no melhor dos casos, fica misturado com tantas outras coisas que ele tem dificuldade de encontrá-lo. Agora, o trabalhador hábil é muito cuidadoso quanto ao que ele traz para dentro do seu cérebro/sótão. Ele só leva as ferramentas que o ajudam a fazer o seu trabalho, mas destas ele tem uma grande variedade, e todas na mais perfeita ordem. É um erro achar que esse quartinho tem paredes elásticas e pode se estender em qualquer direção. Pode ter certeza de que vai chegar o momento em que para cada acréscimo de conhecimento, você vai esquecer algo que você sabia antes. Portanto, é da maior importância não ter fatos inúteis empurrando os fatos úteis para fora.

– Mas o Sistema Solar! – eu protestei.

– Que me importa o Sistema Solar? – ele interrompeu sem paciência. – Você diz que nós rodamos em volta do Sol. Se nós rodássemos em volta da Lua não faria um mínimo de diferença para mim ou para o meu trabalho.

De fato, somos forçados a concordar que as atividades de um detetive na Londres do século XIX são muito pouco afetadas pela dinâmica conjunta dos planetas (e seus satélites, e asteroides etc.) que giram em torno do Sol. Do mesmo modo, o que muda na vida de, digamos, um/a morador/a de uma grande cidade brasileira no começo do século XXI se ele/a acredita que a terra é plana? E a verdade é: muito pouco, se não nada. A pessoa talvez seja ridicularizada pelas suas crenças (mas liberdade de expressão é isso mesmo), e se veja impedida de trabalhar em indústrias onde todos abraçam a noção de um planeta esférico (telecomunicações, aviação, comércio exterior etc.), mas é só.

E, com base no que eu disse lá em cima: se as crenças pseudocientíficas dos outros são, em geral, inofensivas… Bom, não temos o que temer das crenças absurdas que nem sabíamos que tínhamos, certo?

(A tradução é minha.)

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