10 viradas subestimadas do rock

Viradas são aquelas coisas que os bateristas fazem numa música que são diferentes da batida convencional da própria música – digamos, um “tum-tá, tum-tum-tá…” – para indicar uma transição. Algumas viradas são bastante conhecidas até de quem não ouve rock: a de “In the Air Tonight”, do Phil Collins, é conhecida de fãs do basquete americano, e virou objeto de diversos memes; ou quando a comédia Eu te Amo, Cara, de 2009, aborda o gosto de dois amigos pela banda Rush, a virada de “Tom Sawyer” tem de ser mencionada.

Assim como aquele meu texto poderia ter como título 10 solos de guitarra que não estão em “Stairway to Heaven”, este texto aqui bem que poderia se chamar 10 viradas de bateria que não são aquela de “In the Air Tonight” ou aquela de “Tom Sawyer”. Eu escolhi 10 viradas de bateristas ou grupos não tão conhecidos, ou músicas mais obscuras de grandes nomes – de cara, decidi não pegar, por exemplo, “Won’t Get Fooled Again”, do Who, que não só é um ícone entre bateristas como também ganhou certa fama fora dos círculos musicais, por causa da série CSI: Miami. Enfim, aqui vão minhas escolhas, sem qualquer ordem de preferência:

  • Clash, “Complete Control”. Esta é a versão ao vivo da música, que aparece na coletânea From Here to Eternity. A minha opinião é que este baterista, Topper Headon, não tem a reputação que merece, pelo menos em parte, porque o som da bateria não costuma ser muito destacado nos discos de estúdio do Clash (atitude sensata em se tratando de uma banda originalmente de punk rock). Em From Here to Eternity a bateria soa grandiosa, e aí o Headon brilha. “Complete Control” tem várias viradas, uma melhor do que a outra, mas a minha preferida está quase no final da música, logo antes do Joe Strummer cantar “This is Joe Public speaking…” Em todas as viradas nesta música o Headon escolhe batidas bem rápidas, mas nesta em particular, ele parece puxar o freio de mão da bateria, e com isso fazer a música e a banda implodirem com ele. O efeito é quase apocalíptico, e absolutamente genial.
  • Smashing Pumpkins, “Bury Me”. Esta também é uma música cheia de viradas, com diferentes graus de complexidade. A minha preferida aparece ao final do solo de guitarra, e conceitualmente é bastante simples (uma sequência bem rápida de batidas na caixa, e depois uma batida no prato), mas é de execução precisa e se encaixa perfeitamente à estética da música: pesada, rápida, um tanto quanto fria. O trabalho do baterista Jimmy Chamberlin é brilhante no restante da música, e não só nas viradas.
  • Rush, “Tom Sawyer”. Logo depois d’aquela, o Geddy Lee canta uma estrofe, e aí vem mais uma virada – é dessa que eu estou falando. É bem mais curta e usa bem menos peças que a virada mais famosa, mas tem uma variação de velocidades e uma repetição de trechos que eu acho sensacional. Sem contar que, para o talento do Neil Peart, é até relativamente simples.
  • Led Zeppelin, “Fool in the Rain”. É a primeira virada depois que a música deixa de ser um, digamos, samba (pode ser algum outro ritmo latino, difícil saber), e volta ao ritmo original. A virada é curta, simples, com mudanças de velocidades nas batidas na caixa seguidas de batidas no tom-tom e no prato. Típico John Bonham: precisão, força, técnica. A música vale também pela batida que o Bonham cria, que pode ser ouvida de forma isolada aqui.
  • Oasis, “Hello”. As viradas nesta música são todas muito parecidas umas com as outras, e todas muito boas. O Oasis não é uma banda geralmente reconhecida pela proeza técnica dos seus instrumentistas, algo que talvez devesse ser revisto em alguns casos. No meu texto sobre os 10 solos subestimados eu já tinha feito uma defesa do Noel Gallagher, e aqui eu aproveito para elogiar o Alan White, o baterista do grupo a partir do segundo disco.
  • Beatles, “Hey Jude”. É difícil dizer que qualquer coisa relacionada aos Beatles é subestimada, já que tudo que eles fizeram vem sendo tão minuciosamente analisado e estudado por tanta gente há décadas. Ainda assim, me parece que um aspecto de “Hey Jude” não muito levado em conta é a entrada da bateria: direta, nada espalhafatosa, ela ajuda a dar mais dramaticidade à música – por sinal, típico Ringo, sempre com atenção total às necessidades da música.
  • Steve Miller Band, “Fly Like an Eagle”. A virada aparece na última repetição do refrão, logo depois de Steve Miller cantar “I wanna fly till I’m free”. Curta, com batidas rápidas na caixa e no tom-tom, e muito bem-executada, ela quase passa despercebida, de tão bem-integrada que está à música.
  • Blondie, “Call Me”. Banal em comparação com outras músicas desta lista, sofisticada para uma banda de estilo mais punk rock/new wave, a virada que abre os trabalhos cai como uma luva com o restante da música.
  • Van Halen, “I’ll Wait”. As viradas nesta música são todas muito parecidas, e podemos pegar como um exemplo típico a que aparece logo antes do David Lee Roth começar a cantar. Eu escolhi esta música não por causa da complexidade das viradas – se fosse por isso, eu poderia ter ficado com, digamos, “Hot for Teacher”. Quando começa a tocar uma música do Van Halen em algum lugar, eu consigo identificar a banda quase imediatamente mesmo sem conhecer a música (certamente não sou o único), por causa do som da bateria do Alex Van Halen; e “I’ll Wait” é, a meu ver, a música da banda que mais deixa em evidência essa característica, e não só nas viradas.
  • Blue Cheer, “Rock me Baby”. Esta é uma banda relativamente obscura, que aqui faz uma versão de um blues do B.B. King. Há várias viradas nesta música, todas muito boas – ela meio que termina em uma virada enorme de meio minuto! Eu fico com a primeira, que marca a entrada da bateria, porque ela dá o tom sujo, pesado, caótico, de toda a música.

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