William Styron e uma lição de solidariedade

Não era a minha intenção, nesta página, ser efêmero – dentro do possível, minha ideia era que meus textos não tivessem um prazo de validade muito curto. Mas acho que o trecho abaixo vale como advertência tanto para a época atual quanto para vários outros momentos de crise, passados e futuros, em que grupos de pessoas com histórias e visões distintas (quando não conflitantes) se veem diante de um gigantesco desafio comum, do qual têm maior chance de sair vitoriosos se unindo do que separados.

Eu extraí esta passagem do romance A Escolha de Sofia, do William Styron. É uma conversa entre dois membros da Resistência na Polônia ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, Feldshon e Wanda (ele judeu, ela não). A Wanda diz ao Feldshon:

Eu sei o que é o sofrimento de vocês. Eu sei o que é isso desde o verão passado, quando eu vi as primeiras fotografias contrabandeadas de Treblinka. Eu fui uma das primeiras a vê-las, e como qualquer um, eu também não acreditei nelas no começo. Hoje eu acredito. É horrível o sofrimento de vocês, nisso ele é insuperável. Sempre que eu passo perto do gueto, eu penso em um maluco com uma metralhadora dando tiros num barril com ratos dentro. É como eu vejo o desamparo de vocês. Mas os poloneses, nós também estamos desamparados, do nosso próprio jeito. Nós temos mais liberdade do que vocês judeus – muito, muito mais liberdade de movimento, mais liberdade do perigo imediato – mas nós ainda estamos num cerco diário. Em vez de dentro de um barril, somos ratos num prédio em chamas. Nós podemos nos afastar do fogo, achar lugares menos quentes, descer ao porão onde é seguro. Alguns poucos entre nós talvez até possam escapar do prédio. Todo dia muitos de nós são queimados vivos, mas o prédio é grande e somos salvos simplesmente por sermos tão numerosos. O fogo não vai chegar a todos nós, e daí um dia – talvez – o fogo vai se apagar sozinho. Se isso acontecer, vai haver muitos sobreviventes. Mas o barril – praticamente nenhum dos ratos lá dentro vai estar vivo… Mas me deixa te perguntar uma coisa, Feldshon. Você espera que os ratos no prédio, morrendo de medo, estejam lá muito preocupados com os ratos que ficaram dentro do barril – os ratos por quem eles já nem sentiam muita afinidade mesmo?

(A tradução é minha. Há uma edição brasileira traduzida por Vera Neves Pedroso.)

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