Naomi Wolf vs. Camille Paglia

Comecei a ler O Mito da Beleza, da Naomi Wolf. Como mal passei da introdução, vou precisar de tempo para falar do livro como um todo; por ora, já posso afirmar que me impressionou bastante a tese central do livro: no momento em que mulheres cada vez mais ocupam espaços que antes eram exclusivamente masculinos (no mercado de trabalho, na política, no controle das finanças domésticas etc.), eis que as forças reacionárias do status quo formulam uma certa noção universal, ou “mito”, de “beleza” feminina que todas as mulheres devem atingir, e que acaba servindo como a mais nova forma de opressão da atual estrutura patriarcal da nossa sociedade. “Mito” este, por sinal, elaborado muito mais de acordo com conveniências políticas e/ou econômicas do que qualquer outra consideração (digamos, biológica ou histórica), ao contrário do que pode parecer.

Sobre a validade da tese da Wolf* eu não me sinto muito confortável para falar. Primeiro porque eu nem acabei de ler o livro! Segundo porque, como eu já comentei brevemente aqui, essa nem é minha formação. Além do mais, críticas à obra da autora como um todo, e a O Mito da Beleza em particular, são fartas e fáceis de encontrar, as páginas da Wikipédia daquela e deste sendo bons pontos de partida. Feitas todas estas ressalvas, eu diria duas coisas: a primeira é que, só de prestar atenção no mundo e na sociedade à nossa volta, dá para ver que a Wolf tem um ponto central válido, plausível e bem-intencionado, e se houver falhas na exposição dela (como o uso de estatísticas incorretas no texto), talvez não seja nada que derrube o seu ponto principal. A segunda coisa eu deixo em forma de pergunta: OK, pode haver críticas bem-intencionadas à Wolf, e elas são bem-vindas; as demais, a que interesses elas servem?

Mas o que eu queria escrever sobre O Mito da Beleza, e sobre a Naomi Wolf, era outra coisa, que foi a verdadeira pulga que se alojou atrás da minha orelha logo nas primeiras páginas. Pelo tom do livro, e pela tese que a Wolf defende, a imagem que foi se formando na minha cabeça foi: “este não é o tipo de texto que a Camille Paglia detestaria?” E por trás desta imagem, veio a pergunta desafiadora: “por que esta impressão?

Da Camille Paglia eu sei um pouco mais do que da Naomi Wolf, não que eu seja um grande estudioso daquela, ou mesmo um estudioso medíocre. Eu me lembro de ter lido, na adolescência, uma entrevista dela na Veja, em que ela falava de Personas Sexuais, um livro que ela tinha acabado de publicar, e que estava fazendo um belo estardalhaço nos EUA; confesso que não entendi muito do que ela disse. Às vezes me deparo com uma entrevista dela a um site qualquer (não gostei que ela criticou o Jon Stewart, pura birra minha), e cheguei a tentar ler Personas Sexuais (recomendado por ninguém menos que David Bowie), mas era uma leitura que exigia uma atenção da qual eu não dispunha naquele momento, e desisti. Tem um texto dela do qual eu sou muito fã, e que inspirou muito do que eu escrevo nestas páginas, que é o prefácio original de Personas Sexuais, descartado por ser muito longo. Nesse prefácio ela faz uma exaltação e uma defesa apaixonada (e apaixonante, pelo menos para o meu gosto) da crítica literária feita fora dos rígidos padrões acadêmicos atuais:

Ser um estudioso é a maior das vocações: compor um comentário devoto, um Talmud, do mundo criado… Eu me sinto numa ligação direta com os eclesiásticos…

Os professores a quem eu mais devo, Harold Bloom e Milton Kessler, são menos professores do que rabinos visionários. O paradigma rabínico se aplica também a outras mentes que eu admiro: Geoffrey Hartman, Alvin Feinman, Richard Tristman. Na Inglaterra, as origens de Oxford e Cambridge no monaquismo medieval produziu, nos seus professores, a tendência ao celibato ou ao homossexualismo. O estilo professoral inglês urbano, espirituoso, verbalmente agressivo contrasta fortemente com o padrão exigido nos EUA, onde, até recentemente, o homem de família moderado e certinho era o mais apreciado. Colin Still nota, “o crítico de arte é essencialmente um intérprete de sonhos.” Eu reivindico descendência de mânticos, áugures, escribas, alquimistas e hereges. A autoridade espiritual das universidades americanas é comprometida pela mecânica interna do carreirismo e da hipocrisia. Do estudioso eu digo: o esteta, o rabino, o monge, mas nunca o burguês.

Bom, agora falando da Wolf e da Paglia. Esta fez uma palestra no M.I.T. em 1991, publicada depois nesta coleção de ensaios (que inclui também o prefácio original de Personas Sexuais). A palestra por si só é deliciosa, pelo esboço autobiográfico que ela apresenta, pelas críticas afiadas e precisas a autores como a própria Wolf (a quem ela chama de “Pequena Miss Pravda”), e por muitos outros motivos. Meu interesse aqui são os elementos da palestra que, para mim, sintetizam o tipo de pensadora que é a Paglia, principalmente em contraste com a Wolf, e que fizeram da minha orelha um lugar tão convidativo para a pulga que eu mencionei mais cedo. Deixo só alguns exemplos: Paglia se declara inteiramente pró-pornografia (Wolf vê o aumento do consumo da pornografia como validação da tese de O Mito da Beleza); Paglia incentiva a busca constante pela beleza, mesmo em campanhas publicitárias (para Wolf, a publicidade é justamente um dos lugares onde as forças reacionárias estão mais presentes); Paglia não ignora efeitos da natureza, tanto da biologia humana quanto do meio ambiente, e enfatiza a responsabilidade pessoal (Wolf parece enfatizar bastante o que Paglia chama, talvez com certo desprezo, de “o sistema”).

Que há entre as autoras uma certa desavença intelectual, colocando em termos bem amenos, acredito ter ficado claro. Uma pergunta que surge é: quem está certa? E eu respondo já, com outra pergunta: não podem estar as duas certas, cada qual à sua maneira? Eu tenho mais afinidade com a Paglia por conhecer melhor o trabalho dela, pela qualidade da sua prosa, e pela sua erudição, o que compensa o seu estilo um pouco raivoso (e ter falado mal do Jon Stewart). E registre-se que, apesar de todas as críticas que ela fez à Wolf e a O Mito da Beleza na palestra no M.I.T., ela demonstrou certa delicadeza – “Naomi Wolf é uma mulher inteligente… Ela tem um ponto a mostrar. Ela só não consegue mostrar bem esse ponto.”

O que me leva de volta aos primeiros parágrafos deste texto: O Mito da Beleza se justifica pela sua tese central, que permite ver fenômenos da nossa sociedade de uma outra forma; do mesmo jeito que o livro fez isso comigo, fez com muitos outros, e mais importante, muitas outras. Se seus métodos são falhos, se sua prosa é deficiente… bom, ainda bem que temos as Camilles Paglias da vida para corrigir seu rumo, ainda mais que elas não perdem de vista que as Naomis Wolfs são suas companheiras de batalhas.

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*-Meu primeiro impulso foi começar esse parágrafo escrevendo “Sobre a validade da tese da Naomi…”, usando o nome próprio da autora em vez do sobrenome. Ainda gosto mais da forma que eu descartei, por razões puramente estéticas, mas deixei o sobrenome por consistência: se o autor fosse, digamos, o Noam Chomsky, eu teria escrito o parágrafo “Sobre a validade da tese do Chomsky…” sem pensar muito. Só coloco este aparte para registrar como os nossos preconceitos às vezes se manifestam de formas bastante inesperadas: afinal, por que escrever ou falar “Naomi” em vez de “Wolf” soa melhor para mim? Será que é só estética mesmo?

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