As lições de Rushdie

No seu livro de memórias, Salman Rushdie conta como, na sua infância, seu pai Anis muitas vezes lhe contava histórias tradicionais na hora de dormir (das Mil e Uma Noites, por exemplo), e sempre mudando trechos, cortando partes, acrescentando personagens etc. Isso ensinou ao jovem Salman duas lições importantes: a primeira foi que aquelas histórias não eram reais – claro, não existiam gênios em lâmpadas, ou tapetes voadores, ou coisas do estilo – mas exatamente por serem irreais elas podiam te fazer sentir e aprender verdades de um jeito que uma simples apresentação de fatos seria incapaz de fazer. A segunda lição foi que histórias pertenciam a ele, Salman, assim como pertenciam ao pai dele, Anis, fossem histórias alegres ou tristes, fossem sagradas ou profanas, e era o direito inalienável dele se apossar das histórias e fazer delas o que bem entendesse: alterá-las, renová-las, descartá-las e eventualmente resgatá-las, dar vida a elas ao amá-las, deixar que elas deem vida a ele. Afinal de contas, das criaturas terrestres, o homem é a única que conta histórias para si mesma, tentando entender que tipo de ser ela é.

Acho que a segunda lição está lindamente expressa pelo próprio Rushdie, e não é muito difícil encontrar excelentes exemplos da sua aplicação – para não me restringir à literatura, o Tarantino deixa claro aqui que mesmo a Bíblia é um texto como qualquer outro e pode ser transformado de acordo com nossas sensibilidades artísticas (na dúvida, é só olhar o capítulo 25, versículo 17 do livro de Ezequiel). A primeira lição me parece mais intrigante e, ao mesmo tempo, mais difícil de absorver: qual é a “verdade” trazida pelo texto fictício que vai além da mera exposição de fatos? Ou, indo mais além: o que é “verdade”?

Muita gente já falou do valor da ficção em comparação com outras formas de prosa. Entre vários outros, temos o americano E.L. Doctorow:

O historiador vai te dizer o que aconteceu, o romancista vai te dizer qual foi a sensação.

Ou o que o brasileiro Caio Fernando Abreu ouviu do terapeuta dele certa vez:

Os escritores, os ficcionistas e os poetas são os biógrafos da emoção. Se alguém, no ano de 2010, quiser saber o que as pessoas sentiam nos anos 80, ele não vai ler Veja, o Estado de São Paulo, o Jornal do Brasil; ele vai pegar a ficção, os poetas. Você tem que estar consciente de que a tua função social é fazer esta biografia do emocional.

Ou então, para encerrar, o que o cineasta John Waters deu de conselho de leitura:

Você nunca deveria ler só pra ‘se divertir.’ Leia para ficar mais inteligente! Para julgar menos. Mais apto a entender o comportamento insano dos seus amigos; ou melhor ainda, o seu próprio. Escolha ‘livros difíceis.’ Aqueles que exigem que você se concentre enquanto lê. E pelo amor de Deus, não me venha jamais com essa conversa de ‘eu não tenho tempo para ficção, eu só tenho tempo para a verdade.’ Ficção é a verdade, seu tonto! Já ouviu falar de ‘literatura’? Literatura é ficção também, idiota.

Enfim, coloquei todas estas belas frases mas ainda não respondi (Doctorow, Abreu e Waters também não responderam): onde está a “verdade” na ficção? Como eu fiz com a primeira lição do Rushdie, vou sair da literatura, mas agora pegando um exemplo do rock. A música “The night they drove old Dixie down“, da banda canadense The Band, conta a história de um soldado que lutou na Guerra Civil americana do lado dos Confederados. A música foi escrita por um não-estadunidense e não-historiador, o que, segundo alguns, fica evidente na qualidade da letra, tão rasa quanto um artigo da Wikipédia. Apesar disso, ela transmite algo aos ouvintes sobre aquele conflito que nenhum livro de história, ou nenhuma fonte primária, é capaz de fornecer. Mas transmite o quê? Será o “senso humano de história”, ou “como ela capta o custo pessoal daquela causa perdida”, de acordo com este artigo (com o qual, aliás, eu concordo)? Ou será tudo isso e algo mais? Em se tratando de arte, ainda mais arte que vem se mostrando popular há tanto tempo, é difícil dizer.

No final, acho que vale para a verdade o que vale para muitos outros conceitos: mesmo sem saber definir, a gente sabe o que é quando a encontra. Inclusive na arte.

(As traduções do inglês são todas minhas.)

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