Taleb, herdeiro (a contragosto) de Hegel?

Nos livros do Nassim Nicholas Taleb, o filósofo alemão G.W.F. Hegel não é uma presença muito frequente, e quando este dá as caras, nunca é de maneira elogiosa. Em Antifrágil, por exemplo, Taleb fala dos autores que ele foi lendo desde a sua juventude, Hegel sendo apenas mais um entre vários (na verdade, um que ele conheceu de forma indireta, através de Alexandre Kojève). Já em Iludidos pelo Acaso, Hegel é criticado tanto pela forma incompreensível como escrevia quanto pela abordagem científica que ele trouxe para o estudo da história. Para dizer o mínimo, não há registros de que o Taleb reconheça o impacto do autor da Fenomenologia do Espírito nos seus trabalhos – ao contrário, digamos, de Karl Popper, quem ele sempre reconhece como uma influência importante, e quem ele cita para refutar o próprio Hegel.

Nunca dei muita importância para esta aversão do Taleb pelo Hegel até ler o texto introdutório ao pensamento do Karl Marx escrita pelo Isaiah Berlin. Neste livro, Berlin discute brevemente Hegel, uma das principais influências pro autor do Manifesto Comunista. Berlin diz o seguinte sobre o que ele chama de corrente conservadora de seguidores de Hegel (a tradução é minha):

Os conservadores, proclamando que apenas o real era racional, declaravam que a medida da racionalidade era a realidade, ou a capacidade para a sobrevivência – que o estágio atingido por instituições sociais ou pessoais, como elas existiam num dado momento, era uma medida suficiente da sua excelência.

OK, agora vejamos estes trechos de Arriscando a própria pele do Taleb (de novo, a tradução é minha):

A única definição de racionalidade que eu encontrei que é prática, empírica e matematicamente rigorosa é a seguinte: o que é racional é aquilo que permite a sobrevivência. Ao contrário das teorias modernas dos psicologuinhos*, isto vem do modo clássico de pensar. Qualquer coisa que impeça a sobrevivência a nível individual, coletivo, tribal ou geral é, para mim, irracional.

[…]

Nem tudo o que acontece acontece por uma razão, mas tudo o que sobrevive sobrevive por uma razão.

[*-este termo é a tradução para psychosophasters, e peguei emprestado da versão publicada em português, traduzida por Renato Brett]

Não há uma similaridade nas ideias dos dois textos? A relação entre racionalidade e sobrevivência? Ainda que o Taleb dê a entender que a afirmação dele é consistente com o modo de pensar clássico, isso não exclui a possibilidade de que essa conexão já tenha sido apresentada pelo Hegel, ainda que de forma menos explícita. Evidentemente, tenho muito mais familiaridade com a obra do Taleb do que com a do Hegel, e longe de mim negar a originalidade da produção do libanês/americano; só acho fascinante como as influências podem (ênfase no podem) aparecer nos nossos escritos de formas que não somos capazes de estimar, muitas vezes até causadas por aqueles de quem não nos sentimos “herdeiros” intelectuais.

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